{"id":1708,"date":"2018-06-16T02:26:34","date_gmt":"2018-06-16T05:26:34","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/mg\/?p=1708"},"modified":"2018-06-16T02:26:34","modified_gmt":"2018-06-16T05:26:34","slug":"pere-version-sergio-de-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/mg\/pere-version-sergio-de-castro\/","title":{"rendered":"A sintomatiza\u00e7\u00e3o das categorias anal\u00edticas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1716 alignright\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/mg\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Une-semaine-de-vacances.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"246\" \/>Bom dia a todos,<\/p>\n<p>Abrimos agora nossa atividade da Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da EBP<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>, tendo como convidada nossa colega da Se\u00e7\u00e3o Rio da EBP, Ana L\u00facia Luterbach, AME da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, bem conhecida e estimada por todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Antes de passar a palavra a Ana, farei uma r\u00e1pida introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da sinthomatiza\u00e7\u00e3o das categorias anal\u00edticas, tema que apresenta e situa a interven\u00e7\u00e3o de Ana.<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller nos chama a aten\u00e7\u00e3o para algo que se passa ao longo do ensino de Lacan, a saber: a gradativa elabora\u00e7\u00e3o de novas categorias, mais adequadas \u00e0s quest\u00f5es com as quais teve que se haver Lacan em seu ensino tardio, tanto quanto a uma esp\u00e9cie de releitura, \u00e0 qual proceder\u00e1 tamb\u00e9m Lacan, e que consistir\u00e1 em adequar elabora\u00e7\u00f5es e categorias iniciais de seu ensino a exig\u00eancias tardias, anotadas em sua cl\u00ednica tanto quanto no pr\u00f3prio movimento do mundo, se eu puder falar assim. Tais exig\u00eancias ser\u00e3o sempre exig\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o feitas pela puls\u00e3o, e nem sempre as de vida, uma vez que tal \u201cmovimento do mundo\u201d dever\u00e1 ser pensado sempre a partir da constata\u00e7\u00e3o de que o objeto <em>a<\/em> atingiu seu z\u00eanite social.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m tamb\u00e9m observar que tal releitura ser\u00e1 um procedimento ao qual se entregar\u00e1 tamb\u00e9m o pr\u00f3prio Jacques-Alain Miller, consistindo ela ali, \u00e0s vezes, em tomar uma frase ou um termo dito ou apresentado por Lacan uma ou duas vezes, elevando-o a uma categoria central em suas elabora\u00e7\u00f5es. O exemplo mais c\u00e9lebre de tal procedimento, do qual todos nos beneficiamos, ser\u00e1 talvez o de \u201ctravessia da fantasia\u201d, sugerido apenas uma vez por Lacan, no livro 11, e tomado por Miller como piv\u00f4 de toda uma importante elabora\u00e7\u00e3o sobre o final da an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Podemos dizer, repito, que tais retomadas, que tais releituras de conceitos elaborados no in\u00edcio de seu ensino, seja por Lacan, seja pelo pr\u00f3prio Miller, ser\u00e3o sempre orientadas no sentido de incluir neles a puls\u00e3o. Isso como um efeito do qual n\u00e3o podemos escapar, e por n\u00f3s bem conhecido, do decl\u00ednio do Nome-do-Pai. Isso ainda trar\u00e1 consequ\u00eancias e mudan\u00e7as, sendo a da sinthomatiza\u00e7\u00e3o das categorias lacanianas a que nos ocupa hoje.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 a partir da\u00ed que falaremos, portanto, na \u201csinthomatiza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 qual se refere o t\u00edtulo inicial de nosso trabalho de hoje, onde o primeiro a passar por tal procedimento, ainda com Lacan e possivelmente a mais famosa delas, ser\u00e1 o pr\u00f3prio sintoma. Sabemos que o sinthoma, agora j\u00e1 escrito com <em>th<\/em>, ser\u00e1 distinto do sintoma enquanto uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente justamente por isso: ele n\u00e3o \u00e9 mais uma forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, ele n\u00e3o \u00e9 mais um evento cujo acontecimento se restringir\u00e1 ao simb\u00f3lico. Ele, ao incluir em si algo que permanece, que n\u00e3o se desmancha no ar com a interpreta\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 sido sinthomatizado, encontrando seus fundamentos n\u00e3o apenas num inconsciente estruturado como uma linguagem, mas num inconsciente real, quer dizer, que abrigue em si a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Seguindo nessa dire\u00e7\u00e3o, temos a apresenta\u00e7\u00e3o por Miller, na li\u00e7\u00e3o 10 de seu curso <em>O ultim\u00edssimo Lacan<\/em>, da pr\u00f3pria opera\u00e7\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o tocada pelo crivo da sinthomatiza\u00e7\u00e3o. Ela ali ser\u00e1 apresentada como uma interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais restrita \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de sentido, e sim como uma interven\u00e7\u00e3o que, orientada pela ang\u00fastia, dever\u00e1, pelo mal-entendido, pela homofonia, pelos recursos que podemos aprender com a poesia, ser alcan\u00e7ada visando produzir o sem-sentido, uma vez que o real em jogo define-se justamente por situar-se fora-de-sentido. Isso uma vez que a pr\u00f3pria categoria de Outro, de grande Outro, ao ser tamb\u00e9m sinthomatizada, resultar\u00e1 no que chamamos de parceiro-sintoma, t\u00edtulo do Curso Psicanal\u00edtico de Miller em 1997 e 1998, imediatamente ap\u00f3s o curso dividido com \u00c9ric Laurent, <em>O Outro que n\u00e3o existe e seus comit\u00eas de \u00e9tica<\/em>, onde a inconsist\u00eancia do Outro em seus fundamentos simb\u00f3licos ser\u00e1 amplamente demonstrada e debatida. Ora, constatada essa inconsist\u00eancia do Outro simb\u00f3lico, vir\u00e1 para um primeiro plano (para um \u201cz\u00eanite\u201d social), toda uma rela\u00e7\u00e3o com o outro enquanto meio de gozo, em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o Outro enquanto p\u00f3lo de endere\u00e7amento da fala.<\/p>\n<p>Ora, como indiquei, o sustent\u00e1culo de toda uma ordem simb\u00f3lica, que perder\u00e1 ent\u00e3o muito de seu prest\u00edgio inicial, posto que a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional reivindica sua cidadania, ser\u00e1, justamente, o Nome-do-Pai. De categoria de voca\u00e7\u00e3o universal e transcendental, com fortes resson\u00e2ncias teol\u00f3gicas desde o Freud de <em>Totem e tabu<\/em> (o Totem est\u00e1 a meio caminho entre o pai primevo assassinado e deus pai todo poderoso), ele tamb\u00e9m, e em especial, ter\u00e1 que se haver com os novos tempos. Toda uma ordem patriarcal, em boa parte sustentada em Deus pai, se rearranjar\u00e1, se desfar\u00e1, passar\u00e1 por mudan\u00e7as radicais. Ser\u00e1 ent\u00e3o quando Lacan, no livro 22 de seu <em>Semin\u00e1rio RSI<\/em>, nos termos de Miller na li\u00e7\u00e3o 10 de seu \u00faltimo curso, <em>O ser e o UM<\/em>, ESBO\u00c7AR\u00c1 (e gostaria de enfatizar o verbo esbo\u00e7ar) uma nova categoria, a saber, a p\u00e8re-version. Tal categoria ser\u00e1 nada mais, nada menos que a tentativa de Lacan de SINTHOMATIZAR o Nome-do-Pai, quer dizer, de pensar algo relativo a uma fun\u00e7\u00e3o &#8211; ainda uma fun\u00e7\u00e3o -, mas que n\u00e3o se sustentasse mais apenas num universal que veiculasse, como aprendemos em <em>Totem e tabu<\/em>, uma interdi\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, tentando ali pensar e situar o pai, mas marcado pela puls\u00e3o, quer dizer, por um gozo pr\u00f3prio e espec\u00edfico a ele, e que se transmitisse. Insisti no termo esbo\u00e7o porque o tomo como um convite feito por Miller para que testemos seu alcance, para que forcemos seus limites e para que insistamos em ampliar seu alcance.<\/p>\n<p>O romance de Christine Angot que Ana trabalhar\u00e1 hoje certamente nos convida a isso: nada mais longe de um pai interditor do que o pai do romance autobiogr\u00e1fico de Angot \u2013 um pai incestuoso que manteve com a filha (com seu consentimento) uma longa hist\u00f3ria er\u00f3tica de incesto consumado. Se tal categoria, a de <em>p\u00e8re-version<\/em>, der mostras de que pode alcan\u00e7ar tal situa\u00e7\u00e3o, bem, poderemos concluir que sim, que a psican\u00e1lise disp\u00f5e de instrumentos capazes de tocar de perto os impasses e a desordem pr\u00f3prias de um mundo (des)orientado pelas exig\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Vamos l\u00e1 ent\u00e3o.<\/p>\n<h6>S\u00e9rgio de Castro<\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Atividade da Diretoria de Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da EBP, em 9 de junho de 2018, na sede da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais, intitulada \u201cA sintomatiza\u00e7\u00e3o das categorias anal\u00edticas: Christine Angot e a <em>p\u00e8re-version<\/em>\u201d, coordenada por S\u00e9rgio de Castro e tendo por convidada Ana L\u00facia Luterbach Holck.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bom dia a todos, Abrimos agora nossa atividade da Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais da EBP[i], tendo como convidada nossa colega da Se\u00e7\u00e3o Rio da EBP, Ana L\u00facia Luterbach, AME da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise e da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, bem conhecida e estimada por todos n\u00f3s. 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