O uso do dispositivo de cartel desde a proposta original de Lacan nos convoca à produtividade que suporta, embasa e traz avanços à psicanálise e, num âmbito político, interroga e fomenta a Escola.
Hoje vemos modos de uso de cartel como ferramenta que não seguem os mesmo parâmetros e orientações iniciais, os chamados cartéis não standards, como os cartéis fulgurantes e os cartéis relâmpagos. Diante disso, cabe-nos investigar, mas não sem questionar seu uso, efeito ou eficácia.
Vou citar algumas questões que essa prática suscita, mais como problematização do que resposta, situando de antemão que se trata de uma investigação.
Embora sejam práticas baseadas num modo de funcionar diferente do que foi proposto por Lacan, os relâmpagos, flashes e fulgurantes, continuam nomeados como “cartéis”, ainda que se tratem de outra operação e tempo. O que os configura, enquanto tal, efetivando-os como cartéis? Como tirar proveito disso que foge ao modelo original sem desviar de seu propósito, sua finalidade?
“A estrutura do cartel responde e inscreve o que centra a psicanálise, a questão do real como impossível. O transitório, o aleatório, a permutação e o líder desbastado (…) são princípios que põem em jogo o impossível e a crise (…) Assim, a operação analítica está inscrita na própria estrutura do cartel” (1)
São estes dispositivos possíveis de fazerem avançar no sentido de uma provocação de produção?
Os “mais-uns” destes cartéis não standards conseguem exercer sua função de “agente provocador” (2), em sua função de esvaziamento e não de preenchimento, em sua função de “menos”, não se situando no discurso do mestre?
Conseguiriam operar num tempo breve sem ficar numa discussão rasa, mas proporcionando avanços de algum modo?
Em tempo tão limitado e com formação aleatória na escolha de sua composição, o “mais -um” atingiria a função de não favorecer identificações de grupo?
Nohemí I. Brown formaliza uma discussão em relação ao tempo e o cartel na contemporaneidade: “A questão do tempo no cartel pode ser problematizada, desde a dimensão da pressa que pode precipitar a elaboração ou pode precipitar impasses… Cartéis de uma reunião só, por exemplo. São usos do cartel que podem renová-lo, mas também banalizá-lo.” (3)
Diante do desafio de uma experiência cujos efeitos são variáveis, mas não sem o alerta positivo de inúmeras questões, nos lançamos a uma prática. Vou ousar falar dessa experiência cujos efeitos ainda estão em elaboração.
Trata-se de um cartel relâmpago proposto em torno do tema da diretoria da Seção São Paulo 2019-2021: “a segregação”. O texto escolhido foi “Psicologia das massas e análise do eu” e se realizou no dia 04 de maio de 2019, na cidade de Campinas/SP, portanto, recente e com produções escritas e consequências ainda em curso.
A abertura da atividade foi sobre o dispositivo dos cartéis e suas variações não standards, seguindo para um comentário e contextualização do texto de Freud, onde temas foram destacados e localizados como orientadores das formações de grupos, os pretendidos cartéis.
Os interlocutores se dividiram em pequenos grupos a partir da escolha do tema a ser trabalhado. Seguiu-se então para, entre eles, a escolha daquele que faria a função do “mais-um”. Neste momento foram necessários dois cuidados: favorecer a presença em todos os grupos de ao menos uma pessoa que fosse membro de escola ou que tivesse um percurso analítico que se autorizasse nesta função e ressaltar a função do “mais-um”.
Formados os grupos, a discussão se estendeu formando cartéis. Ao final discutimos com todos os participantes os produtos, questões ou elaborações ali realizadas.
Como efeito de uma prática onde o instante de elaborar é de algum modo precipitado pelo breve tempo proposto, algo do que pôde ser extraído segue nas reflexões a seguir.
Não dá para considerar que todos os “grupos” formados ali de fato se constituíram como cartéis, pois para tal formação a operação não basta estar pautada nas intenções ainda que esclarecidas. Claro que isso ocorre também em cartéis standards, onde alguns se diluem, outros findam em grupos, etc. Mas na precipitação do tempo em relação ao manejo, elaborações e constatações se dão de outro modo.
A descrição de Guilherme Pimentel Jordão é um dos produtos do trabalho deste cartel relâmpago e segue aqui como algo extraído desse intenso trabalho.
Essa experiência que Guilherme compartilha em seu texto expressa um “dentro e fora” – passa do encontro de todos os participantes no grupo, depois o trabalho em cartel e volta sua discussão ao grupo. O produto essencialmente extraído do cartel inclui, desse modo, a discussão geral em torno do tema. Comporta algo de uma elaboração dele, não sem os integrantes do cartel e dos participantes dos outros cartéis que se reuniram no final. Ou seja, localiza-se aí impasses extraídos que, de algum modo, não se fecham em um saber constituído, mas que circulam.
Tivemos presenças diversas neste dia de trabalho, o que incluiu membros de Escola, alunos de Instituto, assim como outras pessoas que estão em outras instituições e vieram para atividade – seja pelo tema proposto, seja pelo dispositivo.
Nesta experiência, localiza-se uma função de “provocação” possível com este dispositivo. Um certo “despertar” provocado e lógico.
Podemos dizer um possível efeito de formação?