Transmissão e Invenção

Por Dinah Kleve

 O momento que estamos vivendo tem nos colocado importantes questões sobre nossa posição enquanto analistas, tanto no que diz respeito ao trabalho um a um, junto aos sujeitos que recebemos em análise, quanto à sustentação de uma ética em outros espaços para além daquele estritamente ligado ao dos atendimentos.

Esta inquietação tem nos levado a conceitos que pautam a psicanálise lacaniana, em busca de um posicionamento político que não seja a repetição do discurso do mestre, mas sim a viabilização mesma de nosso trabalho, tendo em vista as restrições que a pandemia nos tem imposto. Foi isso, aliás, o que determinou o meu recorte no estudo que realizamos sobre o Sonho do Unicórnio. Trata-se de buscar, naquilo que nos foi transmitido, elementos para viabilizar invenções que se fazem necessárias frente aos limites que temos confrontado, sem permanecer no registro do déficit.

Neste recorte, pautei-me na questão da transferência, por não ter localizado, inicialmente, no texto de Leclaire, menções explícitas a intervenções de sua parte que tivessem sido tomadas por seu analisante como interpretações, ou seja, menções que fizessem referência ao seu manejo da transferência de forma a tornar a besteira falante.

Entre as hipóteses que fiz sobre o motivo deste “apagamento do analista” em sua narrativa, ocorreu-me o modo como Leclaire, no capítulo 8 de Psicanalisar, se refere ao silêncio do analista como aquilo que instaura a transferência. Creio que aqui cabe a interrogação quanto a se não é o desejo de analista que tem no silêncio uma das maneiras de se expressar, talvez, até, prioritariamente, uma vez que esse silêncio não se refere a um não uso de palavras, mas àquilo de que o psicanalista se abstém, o que realmente instaura o amor de transferência como resposta. Ao tratar desta questão em Silet, Miller situa o analista entre a pulsão e o silêncio.

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Pajubá e a Fulô de Lalíngua

Quantas línguas há na nossa língua mãe? Além daquela do pai, da norma culta; e a da mãe, de ternuras ancestrais, há ainda, muitas mais, muito mais no cristal da língua, nesse mosaico em constante mudança que nos constitui. Nele, cabem até mesmo os brados raivosos dos paranoicos no poder. Boas mesmo são as línguas que trazem fragmentos de um passado perdido, de indefiníveis certezas. Somos transportados a uma zona da memória impossível de localizar. São elas que habitam a tendência irresistível para alguns de fazer, de uma flor, fulô e para outros, para quem flor é flor, ainda assim de bater com o pé no chão quando ouvem “pisa na fulô, pisa na fulô…

 Que memória é essa? A mesma que Proust nos leva a sentir, mesmo não tendo ideia do que seja uma Madeleine. Basta mergulhar nossos fragmentos sonoros no caldeirão da língua quando dizemos, meu dengo, meu araçá.

Para Freud, a memória não tem fim. Melhor, não tem limites. A ideia de um estoque finito, como pensa a neurologia, mostra seu caráter de ilusão quando a mesma ciência não cessa de destacar como as conexões neuronais são incontáveis por se fazerem e refazerem sem cessar. Freud não se interessa pelo arquivo morto. Que nossa biblioteca de memórias seja enorme, de acordo. Mas o que conta, o que desperta e faz sonhar são as memórias do esquecido. Valem as que não se encaixam no verbo da cidade, andarilhas errantes, mais neuras que neuros.

Para tudo que não coube na língua pública e nem na privada, mas apenas ficou como ressonância, ritmo, cor, Lacan inventa um nome, fazendo cantarolar sua langue com o termo lalangue. Na nossa língua um tanto dessa vibração se vai, mas que seja, digamos em português lalíngua. É com ela que em última essência lida o psicanalista ao fazer os fragmentos de história fora da história de cada um falar.

Quanto de alfabestização é preciso para que falemos em bom português, valorizando os encontros consonantais em chiados e erres prolongados? Quanto se encolhem nossas vogais quando dizemos “dentro de mim” em vez de “dendimim”? “Muito prazer” em vez de “ôba!” e assim por diante?

Nessa distância entre lalíngua e a língua oficial brotam dialetos. Vivi um deles por anos, o dialeto médico, com seu jargão entre radicais gregos e latinos, tendo um termo para qualquer evento a fim de evitar que o paciente saiba que dele falam como de uma coisa. De “hanseníase” para lepra ou do atual “cuidados paliativos” para fim de linha, o jargão médico sempre me deu a impressão de um modo pretensioso de esconder a morte ao preço de uma mortificação da linguagem.

Esse número do Radar do analista cidadão busca o encontro com outro dialeto, quase o avesso daquele do médico, o pajubá. É o dialeto dos trans e de sua rua, reinjetando lalíngua na língua oficial, sexualizando a linguagem e falando a seu modo da vida e da morte.

A ideia partiu de Maricia Ciscato, mais especificamente de seu encontro com as falas de Amara Moira que é, ela própria, ponto de encontro entre o pajubá a experiência trans da rua, prostituta que é ao reverberar na ponta de sua língua, tanto o pajubá das ruas quanto, em sua tese de doutorado, as onomatopeias de Joyce.

Conversando com Maricia e com Veridiana Marucio, vimos como podemos aprender com o pajubá um modo de articular passado, presente, interdito e dito e, talvez, alguma coisa do que ocorre em nossa clínica se ilumine por ele. Basta que se ouça Amara em pajubá para que sejamos transportados a essa periferia da língua em que localizamos nosso trabalho e onde ecoam os terreiros, talvez de modo próximo e distinto daquilo que Lélia Gonzalez chama de pretuguês.

Além do dialeto médico, tenho vivido há um bom tempo no lacaniano. A trama de palavras pacientemente tecida por Lacan ao longo dos anos para nos levar o mais próximo do calor dos acontecimentos, pegou muita friagem no caminho ao vir para nossas terras, não apenas perdeu sabor, mas ganhou uma ossatura que mimetiza demais a do francês, nos levando a dizer coisas estranhas como “da ordem de…”, ou “objeto pequeno a” com a maior naturalidade. Meus votos são os de que esse Radar abra os ouvidos dos que usam os termos de Lacan como usavam os médicos de meu passado, para a força e virulência que tinham em seu tempo, como os termos do pajubá têm, hoje, no nosso. 

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Comentários provocados pelos textos-produtos do cartel composto pela Diretoria da EBP-Rio entre 2019-2021

Maricia Ciscato

Me foi designada esta interessante função de um “mais-um ad hoc”, um mais-um “para esta finalidade”, a desta mesa. Se cabe ao mais-um fazer circular o efeito de sujeito no cartel, como afirma Miller, ele não o faz sem também se colocar a trabalho na questão que o cartel lhe provoca.

Miller nomeia o produto de um cartel como uma “elaboração provocada”.[1] Trata-se aí da proposta de trabalhar para a extração de um pequeno naco de saber, de uma elaboração que permita a cada um seguir avançando em seu percurso. Para mim, é um privilégio estar sendo provocada então, a elaborar, a partir dos produtos do cartel realizado por esta diretoria. Os textos de vocês me produziram questões, que retorno à mesa, não como perguntas a serem respondidas, mas, na melhor das hipóteses, para seguirem sendo trabalhadas por cada um, inclusive por mim.

 

O AE e o ódio à democracia

Começo com um ponto levantado no texto de Paulo. Paulo retoma a radicalidade da proposta de Lacan na “Proposição…” no que diz respeito ao lugar do AE. Diz Paulo: “O AE pode advir do tempo 0”, pois Lacan desfaz os supostos degraus a serem escalados um a um até uma imaginária ascensão a uma posição superior (AP, AME, AE). Isso provocou intestinas reações à época, pois, nas palavras de Paulo, introduziu uma pequena “catástrofe” na ordem vigente das sociedades psicanalíticas: a de que qualquer um (não importa quem) pudesse se autorizar analista, precisando, para isso, apenas testemunhar sobre a conclusão de seu percurso de análise.

Essa forma de Paulo apresentar a pequena catástrofe na ordem hierárquica, que Lacan instaurou no coração da Escola, ressoou em mim de várias formas. Numa delas, levou-me a outras áreas, ao me fazer recordar o argumento central de Jacques Rancière em seu livro “O ódio à democracia”. Rancière argumenta que há um ódio à democracia que decorre da radicalidade de seu princípio: a de que a qualquer um cabe a legitimidade política – sem garantias prévia a sinalizarem o merecimento de um lugar a partir de um conhecimento prévio (ciência) ou de uma determinada condição financeira (riqueza) – ou ainda, acrescento diante do nosso caos atual, dos designíos de um Deus.

Entender a democracia tal como Rancière a interpreta significa, segundo ele: “entender a batalha que se trava nessa palavra: não simplesmente o tom de raiva ou desprezo que pode afetá-la, mas, mais profundamente, os deslocamentos e as inversões de sentido que ela autoriza ou que podemos nos autorizar a seu respeito.”[2][3]

Me parece que essa proposta poderia se aproximar da chave de leitura a que Paulo nos apresentou o lugar do AE na Escola, ou seja, em seu âmago, a democracia “implica catastroficamente que cada um (não importa quem)”, sem dinheiro, ciência ou Deus, possa ocupar um lugar fundamental no contexto político. Você, acha, Paulo, que poderíamos pensar a Escola, neste sentido estrito em que Lacan lança o AE ao seu cerne, como uma experiência radicalmente democrática, na acepção trabalhada por Rancière?[4]

 

Escola oásis

Seguindo com meu breve retorno à Rancière, me deparei novamente com um pequeno texto de Miller, que circulou nas vésperas das eleições francesas, em 2017, sobre um livro de Rancière intitulado “Em que tempo vivemos?” – o texto de Miller se chama “Jacques Rancière, uma política dos oásis”. Retorno, então, mais uma vez – movida pelo belo título do texto de Paulo, “Modifiquei o deserto do Saara” (o qual quero retomar ao final), e pela instigante proposta do texto de Andréa Reis –, aos oásis.

Aliás, Andréa, devo à sua retomada da ideia dos oásis mais uma volta minha em torno da diferença entre “esperança e aposta”, conversa nossa antiga. Você ressalta em seu texto que os oásis definitivamente não são lugares de esperança. Eu concordo, mas isso só agudiza seu valor da aposta, necessária, de seguirmos abrindo brechas no presente, para respirarmos no agora, e não no amanhã, não acha? É a própria ideia do túnel que você retoma. A esperança visaria à luz no fim do túnel e a aposta à luz no túnel? Seria possível fazer, do túnel, oásis?

Na leitura de Rancière, assim como na nossa, no tempo em que vivemos, o capitalismo “mais do que um poder se tornou um mundo”, não se trata mais apenas de um jogo de poderes, pois vivemos, andamos e respiramos nesse meio.[5] “Só digo [diz ele] que uma política de emancipação existe sob a forma da interrupção de um tempo normal ou talvez também de uma fenda, de uma ilha ou oásis que se faz dentro do tecido normal das relações sociais.”[6]

Em seu comentário, Miller afirma, como vimos com Andréa, que a “seu oásis, Lacan o chamava Escola”.[7] E retoma o Ato de Fundação, em que Lacan afirma sobre o termo Escola: “Ele deve ser tomado no sentido em que, em tempos antigos, significava certos lugares de refúgio, ou bases de operação contra o que já então se podia chamar de mal mal-estar na civilização”.[8]

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Uma diferença sutil de grande alcance

Por Ana Tereza de Faria Groisman

Boa noite.

Minha contribuição diz respeito a dois pontos que destacamos do caso de Lucia Tower: o inconsciente do analista e o desejo do analista; dois pontos que podem ser lidos num mesmo eixo. 

Lucia nos ensina sobre o deslocamento, num percurso de formação, do desejo de tornar-se analista para o Desejo do analista; desejos quase antinômicos entre si e que, ao mesmo tempo, mantém uma relação paradoxal. Se de início poderíamos supor que logicamente um levaria ao outro, afinal, busca-se uma formação a partir do primeiro, logo percebemos que um é entrave para o outro. Jacques Alain Miller nos adverte que o desejo de ser analista é, no fundo, de qualidade bem duvidosa1.

Quando Lucia nos revela que o que a orientava era uma “atitude terapêutica desejável de infinita paciência e esforço de compreensão”, percebemos que tal atitude não estava aberta à contingência do encontro com a paciente; era um ideal terapêutico que a impedia de escutar algo da transferência. A reação contra-transferencial do acting out coloca em evidência sua porção de resistência ao tratamento. Mas, num movimento freudiano, Lucia não recua diante disso. Ao contrário, tira consequências daquilo que aparece como rasura no tratamento, como o que, ao se apagar, destaca a presença do inconsciente na cena. O que nos pareceu interessante de destacar nesse caso diz respeito ao fato de que, ao contrário dos teóricos da contratransferência, ela não vai buscar em sua paciente os motivos para seu esquecimento, mas sim em seu sintoma infantil, em sua histoeria. Esse acting faz irromper por trás da “atitude terapêutica desejável” uma “resistência prolongada ao abuso”, que não contribuía em nada para que a paciente se deslocasse de sua posição raivosa e paranóica junto a ela e possivelmente junto aos outros. Debruçar-se sobre seu esquecimento, fez vir à tona uma série de afetos até então desconhecidos por Lucia, possibilitando-lhe se retificar na cena analítica.

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As mulheres são melhores analistas? Em torno do caso de Lucy Tower

Por Ana Beatriz Freire

Trabalho resultado do Cartel para o primeiro encontro do Seminário Clínico 2021, formado por Ana Beatriz Freire, Ana Tereza de Faria Groisman, Marcia Zucchi, Maria Corrêa de Oliveira, Maria Silvia Hanna, Vânia Gomes (mais um).

Na “Conferência em Genebra” Lacan afirma: “Deve-se julgar isso entre as mulheres analistas. As mulheres analistas são as melhores. São melhores que o homem analista”1. Como observa Elisa Alvarenga sobre essa passagem em seu artigo2 “As mulheres analistas”: “É curioso notar que ele diz mulheres analistas, no plural, e homem analista, no singular”. Mais tarde, em 1980, Lacan dirá sobre as mulheres que são “[…] as melhores analistas, quando não as piores”.3

Sabemos que quando falamos de mulheres é sempre uma a uma, e no homem podemos, através da referência fálica, agrupar em um todo, em um conjunto que se forma pela exceção. Também sabemos que para Lacan, homem (no singular) e mulheres só podem ser situados na sua particularidade pelas fórmulas da sexuação, pelas posições sexuadas e não apenas pelo sexo anatômico como tal. A questão que podemos colocar com Elisa Alvarenga seria: como o significante falo, como significante concebido como semblante, é abordado por Lacan nessa distinção homem/mulher? Ou melhor, haveria diferentes semblantes que distinguiriam o homem das mulheres e que pudessem diferenciá-los na função de analista?

Nesse Seminário livro 10, interrogamos o que nos toca particularmente nos seguintes termos: será que há distinção entre homem e mulher na posição do analista? E, mais ainda, o que as teóricas da contratransferência nos ensinam?

Utilizamos o termo “teóricas” no feminino e no plural, pois como afirma Lacan no Seminário livro 10: “[…] se há pessoas que disseram alguma coisa sensata sobre a chamada contratransferência, elas foram unicamente mulheres […]. Foram as mulheres em sua maioria esmagadora, que ousaram falar da coisa e disseram coisas interessantes”.4

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Lucia Tower, transferência e desejo do analista

Por Maria Corrêa de Oliveira

A partir do caso de Lucia Tower, o cartel esboçou uma pergunta:

Quem é o caso?

O relato e o endereçamento das questões relativas ao processo analítico da paciente de Lucia Tower ou o próprio relato de seus impasses e entraves?

Recorremos ao belo texto da segunda lição do livro “Perspectivas dos Escritos” para nos determos no que Miller destaca sobre a fineza capturada na aprendizagem com o inconsciente. Uma fineza que também recobre a atenção aos detalhes, às sutilezas que comparecem, por exemplo, naquilo que poderia ser considerado uma singela escorregadela. 

Miller chama a atenção para a importância do analista se manter em contínua aprendizagem com a presença de seu inconsciente uma vez que “com esse nunca se está em dia”1. Uma posição advertida, que requer a humildade de um eterno aprendiz.

Freud é o mestre que nos ensina a nos determos a aprender com as sutilezas de um ato falho. Seguir aprendendo com seus lapsos mas, sobretudo, poder testemunhar sobre suas consequências e efeitos. Não seria essa uma das posições valiosas que se espera de um analista?

Com essa orientação é importante destacar o material que Lucia Tower disponibiliza ao se deter em seus tropeços.  Não se furta em dar seu testemunho, ilumina seus equívocos e os submete ao investigá-los. 

Partimos dessas ofertas, dos impasses de Lucia Tower, com um pequeno recorte que pudemos extrair sobre o desejo do analista.

Retomarei muito rapidamente a noção de contratransferência somente para ser uma via de passagem com a transferência e com o desejo do analista.

A crítica de Lacan ao conceito de contratransferência, denominada no Seminário 10 como “autocrítica interna”2, diz respeito à valorização excessiva no eixo transferencial do registro imaginário. Referendada no eu, a análise das resistências estava se apresentando como um parâmetro da técnica analítica, um cenário que serve como empuxo para que Lacan proponha a resistência como sendo do analista, e não do analisante.

O passo importante nesse cenário onde se dá a reviravolta lacaniana é a atenção dada por Lacan ao par transferência-contratransferência, no que essa duplicidade abarca: interesses narcísicos, identificação imaginária, relações pautadas no amor e no ódio.

Elementos que por si só já se apresentam como obstáculos ao processo analítico.

Serge Cottet, em seu brilhante livro “Freud e o desejo do psicanalista”3, dá a justa medida do quanto a concepção da contratransferência pode induzir ao que ele chama de “desvios” no sentido de uma identificação do analista com seu analisante. Uma identificação que pode, sobretudo, escamotear a responsabilidade do analista no que importa efetivamente ao processo analítico.

Fazendo referência à contratransferência como “a soma dos preconceitos, das paixões, dos embaraços e desconhecimentos do analista”4, Lacan sublinha que o que deve ser valorizado como função do analista em resposta ao amor transferencial da parte do analisando é o seu desejo. Desejo de que uma análise se oriente não somente com o firme propósito de seguir em seu curso, mas que siga, sobretudo, mediante o desejo que se orienta pelo que causa, tirando proveito do sintoma, das repetições e atualizações que comparecem no fenômeno da transferência. Desejo do analista que acompanha as entrelinhas dos significantes, rastros e pistas para o encontro com algo muito singular que comparece sempre de esgueira, algo como “encontrar a senha do sintoma”5.

No texto A direção do tratamento e os princípios de seu poder, de 1958, Lacan afirma o que já havia abordado no Seminário I: “não há outra resistência à análise senão a do próprio analista”6. Ao indicar que só há uma resistência em questão, Lacan também parece sustentar que o fenômeno a ser privilegiado no manejo clínico é só um, a transferência.

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Lucia Tower, a contratransferência e o desejo do analista

Por Marcia Zucchi

Uma questão contextual: conforme se lê no próprio texto de Lucia Tower1, a discussão em torno da contratransferência se intensifica nos anos 40, e basicamente é compreendida como “reações transferencias que os analistas poderiam ter em relação a seus pacientes”. De todo modo seu relato era então tomado como “indecoroso”, “embaraçoso”, “repreensível” (Tower, 1956-2004).

Como ela própria lembra, Freud já se referira à contratransferência, em 1910, mas orientando os analistas praticantes a ultrapassá-la: “Tornamo-nos cientes da contratransferência, que, nele, surge como resultado da influência do paciente sobre os seus sentimentos inconscientes e estamos quase inclinados a insistir que ele reconhecerá a contratransferência em si mesmo, e a sobrepujará.”(Freud, 1910)2 

O texto de Lucia Tower é riquíssimo na orientação a respeito dos primeiros debates em torno da própria transferência e da análise do analista, nos primeiros anos pós Freud. 

Mas destaco aqui um aspecto que me pareceu importante, levantado por Carlos Augusto Nicéas no seu artigo “Contratransferência. Psicanálise e Psicoterapia”3. Nesse artigo Nicéas comenta textos não de LT, mas de Margareth Little, outra das autoras mulheres que se dedicaram ao tema da contratransferência, destacando que esses textos eram tentativas de resposta às demandas  e sintomas da época.

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