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Comentário sobre Introdução ao narcisismo – o amor de si

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

de Carlos Augusto Nicéas

Os textos de Carlos Augusto Nicéas trouxeram desde sempre a marca de um esforço muito vivo e tenaz de resgatar a fibra dos debates que marcaram a história da psicanálise freudiana e lacaniana. Mais: de retomar em Freud, e na malha muitas vezes para nós já obscura e intrincada dos debates, controvérsias e cismas das primeiras horas da psicanálise, a razão radical de sua invenção e de sua sustentação no desejo de Freud.

Pudemos acompanhá-lo nessa tarefa que fez sua por muitos anos, através de seus diversos artigos e intervenções, de extrair dessas divergências os marcos fundamentais desse percurso da história da psicanálise, seus recuos, desvios e avanços. Seu estilo claro mas minucioso, preciso mas coloquial,  nos captura pelo encanto de seu estilo enquanto nos ensina.

Mas, se retomar os debates clássicos  traduz certamente algo de seu estilo, Nicéas  não o fazia por um preciosismo exegético ou algum tipo de gosto obscurantista ou passadista, algum tipo de nostalgia por uma suposta pureza original da psicanálise. Tratava-se, pelo contrário, de tomar como guia nessa travessia a hipótese fundamental da psicanálise, o inconsciente. E de apontar o que nos afasta dessa trilha.

Assim, podemos acompanhar na leitura de seus textos, além de suas finezas clínicas, o apuro de suas preocupações com os destinos da psicanálise. Nesse sentido, vale lembrar alguns momentos de seu fecundo trabalho. Vale destacar, nesse sentido, sua leitura arguta e minuciosa dos caminhos que tomou o conceito de objeto desde a teoria freudiana.

Nicéas nos fez entrever como a perspectiva que se produziu a partir de Abraham e se consolidou com Melanie Klein levou a desvios teóricos que imprimiram consequências práticas e ideológicas que marcaram a história da psicanálise a partir de sua própria doutrina. Nessa mesma perspectiva, Nicéas empreendeu a leitura dos teóricos subsequentes da transferência e da contratransferência,  demonstrando como esse último conceito resultou do abandono de hipóteses de base da psicanálise, engendrando, por sua vez, consequências que afastaram os analistas do rumo radical a que a doutrina de Freud conduz. Assim, como principal exemplo, destacamos um de seus temas: a teoria do objeto e do final de análise derivadas desse desvio, que resultaram no esvaziamento da novidade radical que a psicanálise introduziu na cultura, em benefício de uma psicoterapia conveniente aos conformismos dos outrora novos tempos.

De sua reflexão, podemos assim retirar – parafraseando Lacan, “por acréscimo” – um efeito de elucidação que nos ressitua e nos faz recolocar questões contemporâneas à luz do que esteve e está em jogo na sustentação da psicanálise no mundo contemporâneo. Isso deu sempre aos seus textos uma extrema atualidade. Suas considerações permitem trazer para o presente, para o calor dos debates atuais, o que há de peste na psicanálise, sua hipótese disruptiva e algo incômoda à civilização contemporânea. Não à toa, Nicéas se interessou tão vivamente pelas questões de Escola e do passe entre nós.

Com este livro então, Nicéas, além de ter dado continuidade à sua perspectiva de trabalho, nos deu uma obra de referência para abordar a questão do narcisismo.  Situou as razões de Freud para manter o caráter sexual da libido e reparti – la em duas correntes, libido do eu e libido do objeto, pelas quais Freud sustentava com coerência, a partir do real de sua clínica, as consequências de sua hipótese do inconsciente e do dispositivo de fala: o furo que a linguagem promove na sexualidade, a ausência de objeto adequado à pulsão e as consequências para o amor dessa delicada topologia, esses vasos comunicantes da libido do eu e do objeto. Nicéas tratou disso com minúcia, apontando os impasses constitutivos, estruturais, das soluções imaginárias, para essa fenda de estrutura. Desse modo, nos permitiu entrever de que maneira para esses impasses foram traçadas as rotas de fuga, de resistência, dos neofreudianos e sua psicologia do eu e das relações de objeto, que Lacan pôde apontar. Verdadeiros desvios, Lacan nos ensinará: face a esse impasse de estrutura, o narcisismo foi tomado como fase a ser superada, na direção do encontro com o objeto total, simulacro da plenitude, de cuja impossibilidade justamente se funda a psicanálise.

A insistência de Freud sobre o dualismo pulsional, que gerou uma espécie de imprecisão na teoria do narcisisimo, como Nicéas marca bem, com a bipartição da libido, não tem assim o caráter apenas de um estágio ou momento a ser superado na teoria das pulsões, não foi apenas um erro ou uma incorreção. A imprecisão tem o valor de dar conta da natureza enganadora do eu e do amor, dessa topologia do eu e do outro e da fenda radical que o amor encobre.

Niceas nos demonstra assim como a teoria do narcisismo se mostrou necessária para dar conta do impasse erótico entre o eu e o outro, o sujeito e seus objetos. O dualismo freudiano ofereceu expressão a esse impasse que anuncia a impossibilidade da plenitude, fazer um de dois, ter um objeto adequado à pulsão. Dessa fenda, dessa solidão, Lacan tiraria outras consequências.

Por fim, gostaria de frisar que o mais importante é que o texto de Nicéas não nos permite apenas remontar a um passado tomado como funesto, um passado de desvios, que poderíamos pretender ultrapassado, como também coloca em cena, ou nos convida a colocá-las, as tentações de recuo ou desvio que podem se atualizar a cada momento em que o inconsciente pode se fechar. Acrescentaríamos: principalmente, em nossa época, por seduções da civilização capitalista, ou pós-capitalista, tecnocientífica, e também tentações institucionais que atualizam de modo terrível o que há de mortificante na psicologia dos grupos, no narcisismo que nos acompanha, nos seus restos, nos nossos racismos e segregações. Nicéas nos adverte sutilmente que essa divisão está em nós, em cada um, seja mal-estar ou impasse da civilização. Através dessa advertência, ele faz eco à perseveração de Freud onde esta justamente encontra Lacan.

Cristina Duba

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