[Radar Carterizante – Nº9] Produção de Ram Mandil, Anamáris Pinto, Antonio Euziné

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Ainda recolhendo os trabalhos das Jornadas de cartéis que aconteceram nas Seções e Delegações da EBP durante 2016, apresentamos três textos neste Radar.

Os dois primeiros foram apresentados na XIX Jornada de cartéis da Seção Minas, que ocorreu em junho: “Cartel: formação e dissolução”, de Ram Mandil, é um texto provocativo para o debate de pontos candentes do trabalho em cartel, apontando para a perspectiva da dissolução e suas implicações.

“Cartel em ato”, texto onde Anamáris Pinto resgata um outro produto de cartel de 12 anos antes e faz seu novo produto a partir das reflexões sobre o anterior. Resultou muito interessante!

Por fim, “O gozo na perversão (o caso André Gide)” foi um texto apresentado por Antonio Euziné nas Jornadas de Cartéis da Delegação da Paraíba em agosto. Trabalho que aprofunda questões atuais sobre a perversão a partir da leitura de Lacan do “caso Gide”.

Esses três textos colocam no horizonte a diversidade do que pode ser produzida partir daquele dispositivo.

Aproveitem a leitura!

 

CARTEL: FORMAÇÃO E DISSOLUÇÃO
Por Ram Mandil

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Penso que qualquer discussão a respeito dos cartéis da Escola nos dias atuais deve levar em consideração não apenas o contexto de sua criação – que coincide com a fundação da EFP, por Lacan, em 1964 -, quanto também o sentido de se propor um trabalho de formação analítica a partir de pequenos grupos, fazendo um contraponto com o modo de elaboração e transmissão do saber analítico a partir de seminários, cursos, conferências, jornadas e congressos. Examinando a prática dos cartéis nas diferentes Escolas da AMP, tal como foi apresentada no relatório do seu presidente no último Congresso, o que se percebe é uma plasticidade enorme em relação à fórmula 4 + 1 proposta de início por Lacan: hoje convivem cartéis que funcionam sob a forma original, com cartéis ditos ampliados, cartéis flash ou fulgurantes, relacionados a um momento ou atividade precisas. Ao mesmo tempo, e pelas especificidades que lhes são próprias, há Escola em que todos os seus cartéis funcionam de modo virtual e Escola em que nenhum cartel funciona desta maneira. Diante desse panorama, é de se perguntar o que – na estrutura dos cartéis – é passível de mudança e o que deve ser uma constante, elemento sem o qual o cartel deixaria de ser um cartel. Outra pergunta que, a meu ver, caberá às nossas discussões: se a proposta inicial do cartel foi a de ser um dispositivo através do qual Lacan visou diminuir a margem para as beatitudes ou para a formação de grandes líderes – sabemos que o líder de um cartel é um líder fraco e transitório -, é de se perguntar se essa função do cartel ainda prevalece entre nós. Ou se ele teria adquirido novas funções, tão importantes quanto os objetivos anteriores. Por exemplo, o fato de o cartel ter adquirido também a função de dobradiça, como meio de aproximação da Escola, considerando-se que a maior parte dos cartelizantes – pelo menos é o que suponho na EBP – é formada por não membros da Escola. Por outro lado, creio que devemos levar em conta as mudanças na lógica dos grupos e das massas, que hoje em dia adquirem aspectos novos em relação ao momento em que o cartel se instituiu como elemento de base para a formação de um analista. Jacques-Alain Miller já chamara a atenção (cf. “O cartel no mundo”) para a prevalência da lógica de sexuação masculina que estava nos fundamentos do cartel (com a sua estrutura de grupo e a presença do +1). Por outro lado, podemos pensar que a dissolução programada do cartel – prevista em sua própria constituição – permite trivializar o que, nesta estrutura, poderia favorecer os fenômenos de grupo.

Creio que o horizonte de dissolução do cartel, instalado desde seu início, é um elemento fundamental da elaboração que este cartel poderá produzir. Como em todo grupo, a força de Eros também se faz presente num cartel. Essa força – fundamental para a constituição de um grupo – tende, no entanto, a deixar em segundo plano a elaboração de saber, ou mesmo a relação com o furo no saber. Ela tende a fazer prevalecer, ainda que de modo implícito, a busca pelos sinais de amor (amar e ser amado pelo grupo e/ou pelo seu líder) a que a lógica grupal induz. Sabemos que esse foi um dos “enganos” que Freud percebeu na sua condução do caso Dora, em que se viu frustrado em sua aposta no desejo de saber da analisante, em detrimento da demanda amorosa ali subjacente – o que o levou a considerar a transferência como elemento fundamental da experiência analítica. Num certo sentido, a perspectiva da dissolução do grupo, colocada desde o início, implica em levar em conta o aspecto disruptivo do real. Isto, na melhor das hipóteses, faz ver que a elaboração própria de um cartel tem relação com “o que de cada um não é coletivizável” (cf. TARRAB, En el cartel se puede obtener un camello).

 

CARTEL EM ATO [1]
Por Anamáris Pinto

Escola cujos membros não procuram na sociedade nenhum privilégio de extraterritorialidade, mas que agem na vida cotidiana e na vida intelectual de seu tempo para fazer passar o que, da política lacaniana, é susceptível de se transmitir a todos e de ter uma incidência real. [2]

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Há hoje uma orientação da ação lacaniana quanto à presença de cartel na cidade. Ao cartel que visava funcionar como uma máquina de guerra contra o didatismo, acrescenta-se ainda ser uma máquina contra o discurso do mestre, hoje encarnado pela gestão, pelos autoritarismos, pelo mercado.

Nesse sentido, é necessário fazer notar a importância dessa ação de encontro do cartel com a cidade, conforme mostraremos a partir de um fragmento de cartel, apresentado na Jornada de Cartéis da EBP em 2004.

Mas por que trazer a experência de um cartel de 12 anos atrás, quando se espera aqui o vigor do novo? O que nos parece importante é justamente fazer uma contraposição do que antes se esperava e do que se espera hoje em relação ao funcionamento do cartel. Interessa enfatizar que o que antes nos parecia atípico, hoje é o que também pode se esperar do funcionamento do cartel.

O texto “Cartel em ato – da fundação de um cartel atípico” [3] relatava uma experiência de cartel no Hospital Psiquiátrico Instituto Raul Soares, sob orientação de um mais-um, Wellerson Alkmin, na época diretor da instituição. Ocupávamo-nos da teoria [4] e do contexto, que incluía toda a prática que envolvia o atendimento dos pacientes e o tratamento da própria instituição. O que nos parecia atípico naquele cartel se dava, em primeiro lugar, pelo fato de que um de seus primeiros produtos foi um ato político: a sustentação da sessão clínica do Instituto Raul Soares a partir da construção do caso clínico. Em segundo lugar, observamos que era também atípico o caráter de intervenção do cartel na direção do Hospital. Wellerson, enquanto diretor da instituição, procurava descompletar a cada momento, a cada vez mais, o modelo de direção administrativa/burocrática, viabilizando manobras importantes que beneficiariam os tratamentos um-a-um.

Assim bem demonstra uma situação que envolvia um sujeito em Hospital-dia. Ele fazia uso abusivo de álcool e droga e, certa vez, procurou o hospital no fim de semana. Embora a instituição não recebesse paciente neste período, a enfermeira, que participava das sessões clínicas, pôde manejar fora do automatismo institucional acolhendo o paciente, orientada pela construção do caso. Com a construção do caso evidenciou-se que a solidão insuportável dos fins de semana levava esse sujeito a se drogar. Buscar o hospital foi uma forma de ele tratar a angústia de maneira menos devastadora do que o uso excessivo da droga. O efeito produzido pelo modo inusitado de acolher esse paciente pôde ser verificado: instaurou-se, a partir daí, para ele, uma outra via onde a passagem ao ato (beber e se apagar) cedeu lugar à palavra e ele pôde então falar de questões até então inéditas que mudaram o curso da condução de seu tratamento.

Esse fragmento é um pequeno exemplo de uma série infindável de casos que nos indicam, na prática, os efeitos de um trabalho de cartel na cidade, na vida cotidiana.

O cartel como dispositivo que provoca o ato político e o ato clínico cumpre, assim, a proposta de Lacan em sua ata de fundação: que os psicanalistas sustentem um trabalho que restaure a lâmina cortante da psicanálise, no dever que lhe compete no mundo.

 

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[1] Texto de Anamáris Pinto – em cartel com Lázaro Elias Rosa (mais-um), Wellerson Alkmin, Margarete Miranda, Marta Monteiro, Marcela Almeida, Cristiana Ramos e Fernanda Costa.
[2] Declaração da Escola UNA – Associação Mundial de Psicanálise – comunicado de 24 de janeiro de 2000. Disponível em: <http://ebp.org.br/wp-content/uploads/2012/04/ESCOLA-UNA.pdf>.
[3] Trabalho apresentado por Anamáris Pinto na Jornada de Cartéis da EBP-MG de 2004.
[4] Deste cartel faziam parte: Wellerson Alkmin (mais-um), Aline Aguiar Mendes, Anamáris Pinto, Cristiana Miranda F. Ramos e Renata Dinardi Rezende. Todos os cartelizantes trabalhavam no Instituto Raul Soares nesse período, sustentando o funcionamento das Sessões Clínicas desse Hospital Psiquiátrico.

BIBLIOGRAFIA

DECLARAÇÃO DA ESCOLA UNA. Escola UNA – Associação Mundial de Psicanálise – comunicado de 24 de janeiro de 2000. Disponível em: <http://ebp.org.br/wp-content/uploads/2012/04/ESCOLA-UNA.pdf>.
MILLER, Jacques-Alain. Cartels dans les textes. Disponível em: <http://www.causefreudienne.net/cartels-dans-les-textes/>.
PINTO, Anamáris. Cartel em ato – da fundação de um cartel atípico. Trabalho apresentado por Anamáris Pinto na Jornada de Cartéis da EBP-MG em 2004.

 

O GOZO NA PERVERSÃO (O CASO ANDRÉ GIDE)
Por Antonio Eunize

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Há uma passagem na vida de André Gide que Lacan, no seu texto “A juventude de Gide”, considera como um episódio que marcou a vida dele para sempre. Trata-se da sedução de Gide por sua tia. Na perversão existe a repetição de um gozo inesquecível. Isso deixa bem evidente que existe uma conjunção do gozo com a memória e que isso é algo bem freudiano. Esse acontecimento, o fato em si, só se tornará traumático num segundo momento, com a significação subjetiva. No caso de Gide, então, somente muito tempo depois é que ele foi capaz de significantizar essa sedução ocorrida por parte de sua tia quando ele era ainda uma criança. Somente mais tarde, quando ele buscava os garotos e, entre estes, os de pele morena e ombros bem-definidos, é que ela vai repetir o menino desejado que ele foi nos braços da tia. Lacan, no Seminário 5, diz a esse respeito:

No momento daquela sedução, ele se transformara no filho desejado, e aliás, fugiu horrorizado porque na verdade nada viera introduzir o elemento de aproximação e mediação que teria feito daquilo outra coisa que não um trauma. Na verdade ele se descobrira pela primeira vez na posição de criança desejada (LACAN, 1966, p. 270).

Somente num segundo momento isso tudo passa a adquirir significação subjetiva. “A perversão de Gide não se prende tanto ao fato de ele só preferir desejar menininhos, o menininho que ele mesmo fora” (LACAN, 1966, p. 271). Entre estes, houve um, Marc Alegret, por quem, segundo Lacan, o amor fez o gozo condescender com o desejo. Portanto, foi nesse momento, no só depois, da primeira cena de sedução, quando ele busca os garotos e Marc Alegret, que ele repete a criança desejada que tinha sido para sua tia, considerada também como a mão do desejo para Gide.

Antes de tudo, vale ressaltar que a perversão, em termos gerais, não existe como estrutura, mas sim como traços perversos; como modalidade de gozo perverso, porém do lado da estrutura neurótica. E, neste caso, como uma modalidade de gozo, caracterizado por um erotismo masturbatório. Neste caso, sabemos que esses traços dizem respeito ao fetiche, de uma perversão do ser falante sexuado do lado masculino, porém como um momento anterior à castração propriamente dita, em que a pergunta constitutiva, como fundamental para se aceder a um patamar superior, considerando-se o grafo do desejo, na perspectiva da estruturação do sujeito, ainda não existiu. O perverso, de uma forma geral, não só ele não quer saber, mas também desmente a castração. O que é determinante na posição de Gide é sua identificação com o menino não desejado. E Lacan coloca a questão até o ponto de dizer que não é absolutamente porque deseja meninos que Gide é um perverso; ele o é porque não pode prescindir de sua mulher, porque dá a sua mulher uma posição tão única que só pode se manter na experiência de conversar com ela ou escrever para ela, isto é, de amá-la sem desejá-la. Isto é perverso. Portanto, Lacan situa a perversão de Gide no nível dessa dependência absoluta com respeito ao objeto feminino (MILLER, 1998, p. 29).

Finalmente, vale dizer que sua perversão se deve ao fato não de ser homossexual, mas sobretudo por ter elevado sua mãe e sua esposa à qualidade de A mulher. Sua perversão se deve ao fato de considerar a mulher como toda para ele. E ainda gostaria de acrescentar o que estivemos pesquisando: a chamada posição perversa de Gide se deve à sua posição fálica em relação a sua mãe.

Todo o problema das perversões consiste em perceber como a criança na sua relação com a mãe, relação constituída na sua análise, não pela dependência vital mas pela dependência do seu amor, isto é, pelo desejo de seu desejo se identifica ao objeto imaginário deste desejo, enquanto a mãe ela mesma o simboliza no falo (MILLER, 1998, p. 22).

Por isso, a falha na simbolização do falo pela sua mãe se constituirá como base de sua perversão e também da não associação entre amor e desejo neste caso considerado por Lacan.

 

Referências:
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1966.
MILLER, Jacques-Alain. Sobre o Gide de Lacan. Opção lacaniana, n. 22, ago. 1998.

 

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Imagens
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