[Radar Carterizante – Nº7] Produção de Carla Denyse da Silva Cordeiro, Carolina Maia Scofield e Dinah Kleve

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O Radar cartelizante continua colhendo frutos das Jornadas de Cartéis que têm acontecido nas Seções e Delegações da EBP, Brasil afora!

Desta vez, temos dois textos apresentados nas Jornadas de Santa Catarina. Um de Carla Denyse da Silva Cordeiro e outro de Carolina Maria Scofield.

O primeiro, “Jackson Pollock, um amor sem engano”, traz uma reflexão cuidadosa e acurada sobre o que seria o amor na psicose e na neurose a partir da vida e da obra desse artista. “Com quem se relaciona cada sujeito?” – indaga a autora.

O segundo, “Corpo e sexuação: o que as trans-sexualidades nos ensinam?”, levanta questões muito relevantes para pensar a partir da psicanálise, como acolher este “sentimento de inadequação ao corpo” muito presente no discurso dos “trans”.

Por fim, recebemos a importante contribuição de Dinah Kleve, da Seção Rio, “Escolas revisitadas” – produto do cartel constituído pela Diretoria de Cartéis e intercâmbio daquela Seção -, em que a autora traça um panorama atualíssimo da ocupação das Escolas, levanta questões e nos indica a busca de uma nova perspectiva em direção às novidades que esses adolescentes-cidadãos estão inventando.

Aproveitem a leitura!

 

Jackson Pollock, um amor sem engano [1] Por Carla Denyse da Silva Cordeiro

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A arte, não raras vezes, parece ensinar a amar. Digo ‘parece’ porque “não há fórmula que possa ser ensinada para pré-escrever ou facilitar a relação entre os sexos” [2]. Não há, no inconsciente, saber sobre a relação sexual. Mas via amor, inventadas uma a uma, parcerias se constituem.

O enfoque dado por Freud ao amor está na tentativa de recuperar uma primeira sensação de completude [3]. Os objetos manteriam entre si um traço em comum, remetendo ao primeiro objeto. Neste ponto da teoria, o objeto é aquele destinatário do amor. Não, ainda, objeto a.

Lido por Miller [4], já em Freud, está a dimensão de gozo, posto que o uso do termo “escolha” implica, para os seres humanos, que não são todos os objetos que estão aptos a serem amados por um sujeito: “se trata, efetivamente, de condições de gozo que determinam a escolha do objeto de amor”.

Se, para Freud, o amor se dá a partir do encontro do sujeito com um outro que se apresente em condições de ser amado, emerge também de sua teoria algo que não passa pelo Outro dentre as condições de amor: aquilo que remete ao gozo.

Em Psicanálise, não há corpo sem gozo. É esse o elemento de vivificação – também de mortificação – que faz emergir ou cair um corpo. O gozo é Um, do corpo Um, mas a partir do qual é possível lançar-se ao Outro: corpo Outro, gozo Outro.

Na crença louca de um sujeito que “acredita ser o único objeto do interesse de um outro”, é possível a erotização do próprio corpo [5].

Amor imaginário. Outro, através do qual, um sujeito constrói-se um corpo.

Vertente presente tanto na psicose quanto na neurose. Miller, em El partenaire-síntoma [6], coloca o sintoma como um “aparato de suplência” neurótica que permite ao funcionamento seguir seu curso. E lê de Freud, em “Inibição, sintoma e angústia”, que “o sujeito, no sintoma, continua gozando através do sintoma, que o sintoma é a continuação do gozo por outros meios”.

Acompanhando, ainda, o pensamento de Miller [7], pode-se situar o amor como sempre delirante. E Deleuze nos lembra: o que interessa em cada sujeito é justamente sua “pequena marca de loucura” [8].

Então, quando o assunto é amor, qual a diferença para o que sustenta uma parceria na neurose e na psicose?

Alguma loucura é preciso para amar, já disseram os poetas. Independentemente de diagnóstico, o corpo próprio e seu gozo estão aí envolvidos.

E a relação possível com o objeto. Se, para o neurótico, a repetição apresenta-se como instrumento de busca por seu objeto perdido; qual a sustentação na parceria para o sujeito da psicose, para o qual não há o que buscar, posto que nunca o perdeu?

Em “Fazer um corpo na psicose: um sinthoma possível?” [9], Verbena Dias analisa o caso de um paciente psicótico ao mencionar a repetição de seu meio de gozo. A autora discorre sobre a localização do sujeito como objeto do grande Outro; em uma relação na qual é possível, a partir do Outro, fazer-se um corpo.

Um corpo que se faz vivo, mergulhado em gozo próprio e atravessado pela corrente pulsional, que pode amarrá-lo em suas relações.

E aqui tomamos como exemplo Jackson Pollock, pintor de destaque do expressionismo abstrato americano. O filme Pollock, a saga do maior pintor expressionista da América [10] fornece os dados.

 “Algo que é sagrado para você: sua arte” – esta frase, dita por um crítico de arte, é dita no filme. Mas nem sempre foi assim. O filme começa mostrando as errâncias do artista entre o alcoolismo e sua pintura não reconhecida.

A contingência e o interesse por sua arte colocam Lee Krasner em sua vida. Ela reconhece a habilidade em seu trabalho e logo passa a ser sua parceira. Ocupa-se de apresentá-lo a importantes pessoas do mundo da arte, promove suas produções e não se intimida diante das crises e internações.   Ela não pede palavras, mas permanece em sua vida. Apenas declara: “Aceita-me!”.

O dripping de Pollock [11]consiste no gotejar da tinta sobre a tela, ineditamente deitada ao chão.

Já aí está o que depois se torna evidente com o body art: o corpo e seu movimento como participantes da obra de arte que deles se depreende. Ou, no dizer de Marisa Morao [12], o corpo próprio convertido “em objeto e em um instrumento que permite ao falasser tratar o mal-estar a respeito do gozo”.

Os períodos nos quais Pollock segue imerso em seu dripping conseguem afastá-lo minimamente da devastação via álcool, mas ela sempre retorna. Apesar disso, o artista conquistou notoriedade no cenário artístico. Lee Krasner a seu lado.

Fabian Fajnwaks [13] propõe que, para Pollock, o dripping tenha sido sinthoma, estabelecendo “uma tentativa de fazer-se corpo”. Todavia, instável, na função de amarrar o imaginário. Instabilidade que “seu alcoolismo devastador e suas errâncias […] demonstram” [14].

Certamente, a arte ocupou função. O gotejar pode dar-lhe um corpo. Todavia, parece que também outro objeto influenciou o rumo de sua arte e serviu como leve borda ao seu gozo: o encontro do artista com Lee Krasner.

Para Pollock, a arte é direta. “Não há enganos” [15]. Mas a mediação entre a arte e o social é feita por Lee. Ela abandona a própria arte para se dedicar ao trabalho de Pollock.

“Com efeito, a verdadeira obra de arte de Lee era o próprio Pollock.” [16] Para Stella Maris Aguilera, tal qual Nora para Joyce, Lee desempenha na relação com Pollock algo da função de uma luva [17].

É com ela que ele pode tornar sua arte instintiva algo que dissesse dele próprio, alcançando assim o almejado sucesso.

E é por esse traço que emerge a questão: essa parceria é, para ele, também uma invenção de sintoma? Nessa vertente, vivificar-se na arte, para além de sua devastação, via amor? Lee foi sua mulher. Entre outras, com as quais a relação parecia impossível, é com ela que ele pode estabelecer uma parceria. E é quando essa relação termina que chega também ao fim sua errância: Pollock morre em um acidente de carro.

Com quem se relaciona cada sujeito? Pollock e sua arte são quase o mesmo. Corpo, substância e gozo. A relação se dá com aquela que lhe ajuda a dignificar-se a si mesmo, a partir da arte.

O amor, via contingência de um encontro, se dá na neurose para um homem que reconheça em uma mulher seu sintoma. Para Pollock, o amor foi o encontro de um homem com uma mulher. Ela deu lugar à sua arte. Ajudou-lhe a ter corpo.

Se Lee Krasner foi, ou não, seu objeto de amor, ela foi, para além disso, uma mulher que se ocupou de toda a realidade necessária para dar lugar ao objeto que dele escorria. Isso parece amor.

O corpo do outro como meio de gozo do corpo próprio. Se não há relação sexual, resta ainda aos falasseres relações de gozo [18]. Tal qual na arte, para Jackson Pollock, no amor, ao falasser, “não há enganos” [19].

 

Corpo e sexuação: o que as trans-sexualidades nos ensinam?
Por Carolina Maia Scofield [20]

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A entrada em Cartel pelo tema “Leis, subjetividades contemporâneas: o que a psicanálise tem a dizer sobre isso?”, no seio da Oficina de Política Lacaniana, nos instigou a estudar sobre a transexualidade. Circulamos pelas novas Leis de Identidade de Gênero e o que pretendem resolver, em direção “ao sentimento de inadequação ao corpo” [21] referido em muitos dos discursos trans. Deter-me-ei, neste trabalho, particularmente ao que nos ensinam quanto às amarrações singulares com que cada falasser se sustenta diante do desarranjo na experiência com o corpo na medida em que é capturado pelas redes da linguagem.

 

Leis de Identidade de Gênero: uma saída cidadã, porém não garante uma solução possível para o impasse sexual

A ordem simbólica do século XX incluía homossexuais, travestis, transexuais como desviantes sexuais. Serviam ao controle, criminalização e estigmatização, já que ameaçavam a integridade do “corpo-nação” [22] e os cânones hegemônicos da época. Sofriam os efeitos da repressão e da patologização sexual, como a marginalidade, a promiscuidade, a pobreza e a degradação. Somente nos últimos trinta anos, com as primeiras mobilizações mais articuladas, surgiu a questão a respeito de “quem eram”, rendendo-lhes o reconhecimento de seus direitos de cidadãos, como o acesso ao matrimônio, por exemplo.

Com a Lei de Matrimônio Igualitário, aprovada em alguns países, reconheceu-se a possibilidade da união civil de pessoas do mesmo sexo, borrando a “adequação” entre os sexos sustentada pela ideia tradicional de complementaridade reprodutiva heterossexual [23]. Lacan, sobre este ponto, escreveu: “não há relação sexual”. Houve uma ruptura de paradigma, mas um reforçamento do casamento como instituição conservadora.

Já a Lei de Identidade de Gênero, também instituída em alguns países como a Argentina [24], instaura uma novidade ao permitir ao indivíduo autodesignar o sexo, prescindindo de toda determinação do Outro Social ou da anatomia e alcançando um reconhecimento jurídico [25].

Poderá servir-se, enquanto lei, do reconhecimento social de poder ‘ser’ homem, mulher ou outra coisa. Há aí um avanço no âmbito da cidadania, dos direitos jurídico, político e social contra a discriminação e a segregação. Porém, valer-se do reconhecimento social, marcado pela identidade, nomeação e afiliação, não garante uma resolução para o impasse sexual – nos indicam os sujeitos trans.

Ao mesmo tempo em que levantam a questão da incongruência entre anatomia e gênero – em que o corpo surge como isso que escapa à apropriação completa pelo sujeito, imaginária e simbolicamente, em seu aspecto inalcançável -, têm uma paixão por resolvê-la, dirá Lacan. Como cada um vai se haver com isso, para tentar armar-se um corpo, é a grande surpresa, o inédito.

 

Os trans e o “erro comum”

O chamado “erro comum” seria a crença na relação sexual, na resolução do mal-entendido que ultrapassa os sujeitos nos corpos e nas palavras.

Na atual ordem simbólica, com prevalência do discurso da ciência e do mercado, faz-se crer, a alguns sujeitos trans, que retirando ou colocando o órgão, resolver-se-á o mal-estar provocado pelo mal-entendido. Faz-se crer no impossível. Porém, por mais que se implante ou remova o órgão, como modo de sacar-se do impasse sexual, o significante vai ser tomado pelo gozo [26].

Se já não estamos mais na época do pai da horda, regulador e orientador de gozo pela via da exceção fundadora, se a relação com o pai muda, a relação com o significante falo também. A partir dessa consideração, Lacan sustentará que a bipartição Homem – Mulher é um assunto de linguagem que escapa a cada momento e que o sexo não define nenhuma relação em seres falantes [27]. A sexuação passa a ser a forma que ele encontrou para resolver essa aporia. O sujeito pode aceitar ordenar sua sexuação sob a égide fálica, em que terá que optar necessariamente entre uma posição de gozo feminina (não-toda fálica) ou masculina (toda fálica). Entretanto, se há o rechaço do ‘erro comum’, da crença na complementaridade, na existência da relação sexual, Lacan se aperceberá de outras formas de se inventar uma sexuação fora do dito standard.

Neste ponto, Lacan passará do ‘não há relação sexual’, recusando o dois da relação sexual como este da articulação significante (S1-S2), para dizer o que há: «Há um», Há-um-sozinho, na dimensão do real, sozinho em seu gozo autoerótico e em sua significância, fora da semântica. Da primazia do Outro da verdade e do desejo à primazia do Um; do ser que é da ficção, do semblante, ao falasser que inclui o corpo.

Esse Um sozinho, que faz irrupção, carrega a desordem do corpo. Assim, será ao escutar o que cada falasser tem a dizer sobre o gozo, isso que incide apesar e para além dele, que poderemos perceber ou destacar na relação do falasser com o resto inapreensível – com o objeto a -, o que vem marcá-lo enquanto significante. Para, desse modo, identificarmos como uma “ideia de si como corpo” [28] pode se armar, dando certa consistência a ele.

 

Da estrutura da linguagem à escrita dos nós

Lacan, atento às novas configurações das subjetividades ao longo das épocas, nos alertou a não recuar diante do inédito das amarrações que os sujeitos vão articulando para se haver com o impossível da apropriação completa pelo falasser do seu corpo. Foi ao se deparar com o furo da linguagem e o fora do sentido que emerge na experiência com o corpo que se esforçou, não mais crendo na dita verdade, a escrever os nós. Com Joyce, aprendeu que há amarrações fora do standard, antes apoiada na imagem e no simbólico. Percebeu que era possível jogar com o real, ser tolo dele, como fez Joyce em sua escrita que o sustentou de pé, na vida.

Assim, perde-se a prevalência de um nó sobre outro, de uma amarração sobre a outra, pois a precariedade está para todos. Como cada um se virará com isso é o que vai instaurar a diferença.

Na contemporaneidade, os sujeitos trans vêm nos dizer do impróprio do corpo que faz intrusão e das amarrações mais variadas das quais se servem para se haver com isso. Do transhomem que implanta o pênis para garantir a fantasia histérica; do transmulher que corta o pênis, em um empuxo à feminização; do trans mulher ou homem que usam artifícios da cultura como maquiagem, tatuagem para dar um tratamento à incongruência; o caso ‘Malu: a imagem’, de Oscar Reymundo, em que a imagem lhe devolve um nome, referindo-se uma “trans não binária”.

Pude entender com Lacan e alguns estudos sobre a(s) transexualidade(s), no plural, que é preciso investigar como os falasseres apresentam seus modos de gozo, antes mesmo de nos acomodarmos numa norma classificatória, enquanto guardiões de uma ordem conservadora. É preciso estarmos atentos ao inédito de cada falasser, das amarrações que usam para erguer seu corpo.

 

Referências:

AKSMAN, Daniel. Genero y transexualismo: la demanda de corte en la época. In: TORRES, Monica; SCHNITZER, Graciela (Orgs.). Transformaciones. Grama Ediciones, 2010.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro XXIII: O sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. 249p.

MANDIL, Ram. James Joyce e a ‘ideia de si como corpo’. 2008. Disponível em: <http://www.abralic.org.br/eventos/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/005/RAM_MANDIL.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2016.

SANTIAGO, Peidro. Del Depósito al Congresso: história de la persecución y resistencia de las sexualidades no hegemonico en la Argentina. In: TORRES, Monica; SCHNITZER, Graciela (Orgs.). Transformaciones. Grama Ediciones, 2010.

SCHNITZER, Graciela. Nuestra passión por lo nuevo. In: TORRES, Monica; SCHNITZER, Graciela (Orgs.). Grama Ediciones, 2010.

 

Escolas revisitadas
Por Dinah Kleve [29]

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“Ocupar e resistir”. A ideia era verificar em que medida este significante elevado à categoria de “palavra de ordem” poderia, quando adotado pelos secundaristas da rede pública, apontar para alguma saída encontrada por parte desses adolescentes para as questões que se apresentam na puberdade. Estariam, ao ocupar suas escolas, encontrando também novas maneiras de ocupar a própria anatomia, numa época em que para além do trabalho de identificação, eleição de objeto de desejo e posicionamento na partilha sexual, há também uma oferta cada vez maior de se intervir no real da anatomia em si? Estariam, ao se engajar numa luta política, reencontrando uma via norteada por um ideal, numa época em que a tentativa de responder ao impossível se constitui cada vez mais como uma convocação ao consumo? E ainda, como entender, dentro dessa dinâmica, o movimento por parte não só de pais e professores, mas também de artistas e políticos, em resposta ao posicionamento desses jovens?

Foi assim que cheguei a um colégio ocupado, na Zona Norte. João, como passarei a chamar o aluno que me recebeu, conhecido pelos amigos pelo modo como grita e se agita durante as manifestações, apresentou-se a mim como sendo “o responsável pelo Social”. Foi ele quem me mostrou o abandono em que se encontrava a escola, traduzido nos móveis, livros e equipamentos que se deterioravam inexplicavelmente em depósitos, até então, indevassáveis. Os alunos haviam se dividido em comissões e funções. Tinham capinado o mato que já ia alto e pintado a quadra onde jogam. Vários dos que não demonstravam, anteriormente, grande interesse pela escola dispunham-se, agora, a acordar às cinco horas da manhã para dar conta de suas tarefas, num momento em que seus RioCards haviam sido cortados.

A mudança de posição subjetiva entre os alunos era evidente. Para João, o maior ganho com essa experiência foi o de haver se tornado uma pessoa mais tolerante, ao ter que se articular com um universo de três mil alunos. Aprendeu, em suas palavras, a negociar com o diferente, em vez de atacá-lo, processo já iniciado quando deixou sua escola municipal e passou a estudar num colégio estadual. Foi neste último, por exemplo, que ele começou a fazer amizades com meninos e meninas homossexuais. Maria [30], aluna que tomou a frente dos trabalhos na cozinha, também deu notícias de seu percurso. “Ninguém se forma mesmo, no terceiro ano, tendo apenas dois professores”, pontuou ela, fazendo referência à greve dos professores. “Eu estou aprendendo muito mais com tudo isso que está acontecendo”. Explicou-me que a ocupação foi o desdobramento de uma decisão conjunta de alunos, pais e professores, não sem ressaltar que assim como há professores que se declaram em greve e simplesmente se ausentam da escola, o mesmo ocorre com muitos alunos que alegam a estar ocupando.

Independente do que o movimento venha a conseguir junto ao governo, todos, ali, parecem ter clareza de uma importante conquista que ninguém poderá mais lhes tirar, e que nomeiam cidadania. Belos grafites e cartazes espalhados pelas paredes da escola dão testemunho dessa nova sensação de pertencimento. Um deles, porém, me faz questão. Seus dizeres – “Meu colégio, minhas regras” – parecem sugerir que se possa prescindir do outro, aqui personificado por professores e diretores, questão a que alude Miller, no texto que nos tem servido de base para as preparatórias do XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano [31], utilizando o termo “autoerótica do saber”. Se, antes, era preciso empreender alguma estratégia com o desejo do outro, a fim de extrair algum saber de um ser falante, quer fosse por meio da sedução, obediência ou exigência, hoje é possível obter qualquer tipo de informação com o auxílio de uma máquina. A falta de respeito por parte dos alunos e a ameaça representada pela tecnologia moderna eram, com efeito, as questões trazidas com maior frequência pelos professores com quem tive a oportunidade de trabalhar, durante uma campanha do SINPRO Rio [32], anos atrás. Deslocados de sua posição de saber e diante da dificuldade de se fazerem destinatários de uma carta ainda em fase de elaboração por parte de seus alunos adolescentes, muitos desses profissionais acabavam imobilizados, capturados na armadilha de supor que, em algum lugar, haveria um saber não lacunar que os habilitaria a manter todo aquele material explosivo do lado de fora da sala de aula, permitindo que exercessem, enfim, aquilo que acreditavam ser a sua função. Minha intervenção, à época, foi tentar fazer vacilar a crença de que ensinar e aprender teriam uma relação causal e estabelecer uma diferença entre ensino e transmissão, buscando ouvir um pouco mais a respeito do desejo dos professores, que, em sua maioria, apesar das enormes dificuldades relatadas, não abandonavam o ofício a que muitos se referiam como “uma cachaça”.

No caso do colégio ocupado que visitei, o desejo dos professores é evidente e decidido. Havia muitos deles em reunião quando estive por lá. Outros circulavam pela escola, junto aos alunos, todos participando ativamente da ocupação. João falou-me sobre a experiência de conseguir passar a enxergar o professor como uma pessoa. Um deles teria mesmo ficado sentido ao notar a surpresa dos alunos diante da possibilidade de vê-lo como um amigo e não apenas como aquele com o poder de reprová-los. O episódio ilustra belamente a questão levantada por Lacadée [33]:É do interesse daqueles que lidam com adolescentes orientar-se por este terceiro tempo do Édipo em que o pai diz sim e opera segundo a modalidade do Outro do Witz. O Witz (…) surge da surpresa de uma troca com o outro e tem valor de neologismo. Deve ser aceito pelo outro para ser reconhecido em seu valor de significante novo que pode ser transmitido a um terceiro. Cabe ressaltar, porém, que este outro, longe de ser um puro receptor, precisa ser alguém, não só cujo riso “assinala ao Sujeito que ele acaba de encontrar um bom entendedor de seu desejo inconsciente”, como nos ensina Alain Didier-Weill [34], mas também alguém “que permita o nascimento desse traço”. “O Ouvinte”, prossegue ele, um pouco mais adiante, “goza menos por ter sido divertido do que por descobrir-se a ‘musa’ do Sujeito”.

Há também movimentos contrários à ocupação que vêm usando até mesmo de violência para demover os jovens de seus propósitos. Entre as ocorrências mais recentes, a mais intrigante talvez tenha sido a que envolveu uma equipe ligada à “Operação Segurança Presente” [35]. Ao constatar que não conseguiria impedir a realização do Viradão Musical [36], sob a ridícula alegação de que o som estava alto demais, às 17 horas da tarde, o líder da equipe teria dito a seus parceiros a frase com que finalizo este escrito, na esperança de manter viva a discussão sobre este importante movimento: “Vamos embora. Esta guerra não é nossa”.

 

 

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[1] Texto produzido a partir da participação no Cartel Parcerias Sintomáticas no Contemporâneo, e apresentado nas Jornadas de Cartéis, na EBP-SC, realizadas em 17 e 18 de junho de 2016.
[2] VORUS, Veronique. Aprendizagem sexual. Scilicet: O Corpo Falante – Sobre o inconsciente no século XXI. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016.
[3] FREUD, Sigmund. Cinco lições de Psicanálise: contribuições à psicologia do amor. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
[4] MILLER, Jacques-Alain. Uma conversa sobre o amor. Opção Lacaniana online, ano 1, n. 2, jul. 2010.Disponívelem: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_2/Uma_conversa_sobre_o_amor.pdf>.
[5] DIAS, Verbena. Fazer um corpo na psicose: um sinthoma possível? Latusa digital, ano 2, n. 15, jun. 2005. Disponível em: <http://www.latusa.com.br/pdf_latusa_digital_15_a2.pdf>.
[6] MILLER, Jacques-Alain. El partenaire-síntoma. Buenos Aires: Paidós, 2011. p. 27.
[7] MILLER. El partenaire-síntoma, p. 180.
[8] DELEUZE, Gilles. Entrevista disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=OlnJL4Mv1vM>.
[9] DIAS. Fazer um corpo na psicose: um sinthoma possível?
[10] Filme baseado no livro Jackson Pollock: uma saga americana, de Steven Naifeh e Gregory White Smith.
[11] Técnica de pintura que Jackson Pollock desenvolveu entre 1947 e 1951.
[12] MORAO, Marisa. Body Art. Scilicet: O Corpo Falante – Sobre o inconsciente no século XXI São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2016. p. 56.
[13]FAJNWAKS, Fabián. Jackson Pollock, el dripping como sinthome. Disponível em: <http://virtualia.eol.org.ar/027/template.asp?El-saber-hacer-del-artista/Jackson-Pollock-el-dripping-como-sinthome.html>.
[14] Se, nesse ponto, os termos amarração/desamarração podem remeter ao pensar em psicose, vale destacar que não é de uma clínica estrutural clássica que partimos. Embora Pollock tenha chegado a receber o diagnóstico de uma psicose alcoólica, acompanhamos aqui Stella Maris Aguilera, que nos orienta a pensar a partir das dificuldades do artista “com o corpo, com o alcoolismo e com as mulheres”.
[15] AGUILERA, Stella Maris. La invención de Pollock. Virtualia, n. 18, out.-nov. 2008. Disponível em: <http://virtualia.eol.org.ar/018/pdf/miscelaneas_aguilera.pdf>.
[16] AGUILERA. La invención de Pollock.
[17] AGUILERA. La invención de Pollock.
[18] MILLER. El partenaire-síntoma, p. 411.
[19] AGUILERA. La invención de Pollock.
[20] Texto apresentado pela psicanalista Carolina Maia Scofield, na Jornada de Cartéis da EBP Seção-SC, em junho de 2016.
[21] AKSMAN, 2010.
[22] SANTIAGO, 2010.
[23] SCHNITZER, 2010.
[24] Lei de Identidade de Gênero, n. 26.743, aprovada na Argentina em 2012.
[25] SCHNITZER, 2010.
[26] AKSMAN, 2010.
[27] AKSMAN, 2010.
[28] MANDIL, 2008.
[29] Este texto é fruto do trabalho desenvolvido pela atual Diretoria de Cartéis da EBP-Rio. Temos voltado nossos esforços para o estudo e a promoção de discussões a respeito da adolescência, tema do XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano a se realizar em novembro próximo, visitando, para isso, diferentes escolas. Nosso percurso incluiu, até o momento, não só o colégio abordado neste texto, cujo nome achamos melhor não compartilhar para preservar a identidade dos alunos mencionados, mas também o Colégio Pedro II, de Realengo, onde funciona a Oficina Literária Ato Zero, cujo orientador e integrantes estarão na Seção Rio, no dia 13 de junho, para compartilhar conosco sua experiência; o internato em que estudou o jovem Törless, acessado a partir do livro de Robert Musil; bem como a própria EBP, nesta Ação Lacaniana, em que buscamos cotejar as três tarefas impossíveis – governar, analisar e educar.
[30] Nome fictício.
[31] “Em direção à adolescência”, intervenção de encerramento da Terceira Jornada do Instituto da Criança, por Jacques-Alain Miller.
[32] A Campanha “Saúde do Professor” (2009) foi uma iniciativa do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região, tendo como objetivo a melhora das condições de trabalho e saúde dos docentes. A ação consistia, principalmente, em conversações promovidas entre psicólogos e professores no espaço escolar.
[33] LACADÉE, Philippe. O despertar e o exílio: ensinamentos psicanalíticos da mais delicada das transições, a adolescência. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2011.
[34] DIDIER-WEILL, Alain. Nota Azul: Freud, Lacan e a arte. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2011.
[35] Operação criada em 2015, por iniciativa do presidente do Sistema Fecomércio RJ, Orlando Diniz, junto ao governador do Estado, Luiz Fernando Pezão.
[36] Evento promovido pela ocupação e de que participaram diferentes artistas de renome.

 

Imagens:

1- Imagem: Maria Objetiva/Barnabé di Kartola
2- Imagem: Maria Objetiva/Barnabé di Kartola
3- Imagem: Maria Objetiva/Barnabé di Kartola
4- Imagem: Maria Objetiva/Barnabé di Kartola