[Radar Carterizante – Nº6] Produção de Sérgio de Mattos e Lúcia Grossi para Noite Preparatória para a XIX Jornanda de Cartéis da EBP/MG.

Esta edição do Radar cartelizante está bem especial porque contamos com dois trabalhos redigidos para preparar um encontro de cartéis. Dupla preparação incluída nesta prática de contínua elaboração tanto no que diz respeito ao trabalho/produto de cartel quanto ao de pensar o funcionamento do dispositivo do cartel. Para mantê-lo vivo é preciso não parar de querer saber, de produzir, de repensar e de transmitir para a Escola o que está em jogo e seus efeitos.
Os textos são de Sérgio de Mattos e Lúcia Grossi e foram apresentados na Noite Preparatória para a XIX Jornadas de Cartéis da EBP/MG que ocorreu no dia 16 de maio de 2016. O título da mesa foi “A crise faz parte da estrutura de funcionamento do cartel”, escolhido a partir das intervenções do psicanalista italiano Domenico Cosenza, convidado para as jornadas de cartéis que aconteceram em 2015. O evento foi pensado pela equipe da Diretoria de Cartéis e Intercâmbios da Seção Minas, que tem como diretor Wellerson Alkmim e funciona como um cartel, cujo mais um é Lázaro Elias Rosa.
Desfrutem!

 

Foto2- BANNERSEMINARIO

O saber é “gustoso”, é preciso passá-lo pela pele
Por Sérgio de Mattos

No Seminário 20, Mais, ainda, capítulo VIII, “O saber e a verdade”, Lacan, neste momento de mudança de perspectiva de seu ensino, introduz algo novo ao colocar a produção do saber vinculada ao gozo e ao corpo. Há aí uma torção que parece deslocar pelo menos um pouco a questão do saber, até então fortemente vinculada ao amor, para a dimensão de gozar do saber.

Em que isso pode nos interessar no que diz respeito ao cartel e às suas crises? Minha intuição diz que me parece conveniente verificar se isso não traria algo novo para tocarmos um cartel.

Numa primeira aproximação, poderíamos dizer, e isso parece claro, que todas as questões sobre as quais buscamos saber são aquelas na qual estamos embaraçados subjetivamente. E onde estamos mais embaraçados senão com o nosso próprio gozo? Assim, desde esta perspectiva, poderíamos dizer, acompanhando Lacan, que o saber advém do exercício do gozo: “Pois a fundação de um saber é que o gozo do seu exercício é o mesmo do da sua aquisição.”

Em outras palavras, é pelo gozo que se adquire um saber. A meu ver isso tem dois sentidos: 1) só realmente sabemos quando nos exercitamos a saber sobre nosso gozo; 2) exercitar-se a saber sobre o gozo, produz gozo, o que nos leva a querer saber mais. Assim a cada vez que ele – o saber – é exercido, visa-se gozar desse exercício.

Mas esse exercício passa pelo corpo: “O saber vale justo quanto ele custa, ele é custoso, ou gustoso, pelo que é preciso para tê-lo, empenhar a própria pele pois ele é difícil, difícil de que? – menos de adquiri-lo do que de gozar dele.”

Vemos que, para Lacan, o que dá sentido – “gusto” – ao saber é que quanto mais difícil – custoso – é sua aquisição, mais realçado é o gozo que daí se obtém. Assim, o saber passa pelo corpo, pela pele, para ser gostoso. E só permanece adquirido na medida em que alguém seja formado em seu uso, diz Lacan mais adiante.

Aqui parece que nos encontramos com a experiência do antropólogo, citada por Viveiro de Castro: para aprender uma língua indígena, é-lhe oferecido como condição de aprendizagem que coma da comida daquele povo, que durma com as mulheres da tribo e que beba seus alucinógenos.

Nem precisamos ir tão longe para entendermos isso. Quão mais fácil não é aprender uma língua quando estamos vivendo em outro país, comendo sua comida? E se arranjarmos por lá um amor, nem se fala o tanto que aprenderemos!? Não é mesmo?

Conhecemos ainda uma metáfora que, vinda da sabedoria popular, revela a importância dessa articulação entre, saber, corpo e gozo. Trata-se do que é dito naquelas ocasiões em que, ao admirarmos o quanto alguém parece estar confortável e no domínio de um certo saber, dizemos que este “tem aquele assunto digerido”.

Tudo isso parece confirmar a tese lacaniana de que o saber se adquire ao passá-lo pelo corpo e por seu gozo.

Parece-me que isso pode interessar a um cartel, não é mesmo? Pensar o cartel desde essa perspectiva de um saber do qual se goza e que visa ao gozo, na aquisição mesma desse saber. Poderíamos então cogitar que além da manobra com o discurso histérico de tirar o objeto de debaixo da barra e colocá-lo nos escritos da psicanálise, em Freud, Lacan, seria preciso também considerar que a elaboração em um cartel passa por esse corpo que fala? Que fala de seu gozo e é movido por ele? Ou quem sabe, não se trataria de uma outra manobra, mas do prolongamento da mesma?

O que poderia ser um mais-um que fomentaria esse saber “gustoso”? Seria preciso retomar aqui a ideia do Gaisavoir, Gaioissasaber[1], o saber dos trovadores? Um saber que produz como jogos de palavras que cifram o inconsciente, com formulações tantas vezes antitéticas, com o bem dizer. É bom saber que a palavra gay, na língua antiga, designava ao mesmo tempo o gozo (no sentido da alegria e da satisfação) e a desgraça.

Como exemplo, a trova (que significa, inventar, descobrir) de Arnaut Daniel.
Sou Arnaldo que acumula vento,
caça lebre com um boi,
nada contra a maré crescente,
Arnaldo que chora e vai cantando.[2]

É fato que se trata de um saber alegre o que a psicanálise propõe, um ganho de alegre saber. Não é esse afeto alegre, de entusiasmo, que parece habitar os cartéis do passe? Nossa proposta seria, então, viabilizar a entrada da alegria no campo da crise?

Sérgio de Mattos é psicanalista, membro da EBP. Contato: [email protected]

Este é um fragmento do texto apresentado por Sérgio de Mattos. Para acessá-lo na íntegra, acesse: http://minascomlacan.com.br/blog/cartel-uma-crise-original/

Sérgio de Mattos é psicanalista, membro da EBP. Contato: [email protected]

[1] A arte dos trovadores, que eles mesmos chamavam de Gaya Ciencia, (Gay Saber), nasceu no século

XI da pluma de Guilhermo IX, de Poitiers, duque de Aquitania, floresce nos séculos XII e XIII no conjunto das terras de OC e dali influencia outros países.

É muito possível que na passagem de “Televizão” em que Lacan se refere ao Gaio Saber, ele aluda às suas características principais, a dos jogos de linguagem, a invenção do duplo sentido e do ciframento (não o deciframento).

“No polo oposto da tristeza existe o gaio issaber (gay sçavoir) o qual este sim é uma virtude. Uma virtude não absolve ninguém do pecado – original como todos sabem. A virtude que designo como gaio issaber é o exemplo disso (de que a virtude não absolve ninguém do pecado original), por manifestar o que ela (virtude) consiste (resta dizer…): não em compreender, fisgar [piquer, beliscar, mordiscar], no sentido, mas em roçá-lo tão de perto quanto se possa, sem que ele (sentido) sirva de cola para essa virtude, para isso gozar com o deciframento, o que implica que o gaio issaber, no final, faça dele (sentido) apenas queda, o retorno ao pecado (falta moral, não se situar no inconsciente, na estrutura). Será que o que aqui surge é a possibilidade de um gozo com o ciframento? E não com o deciframento que acaba alimentando o sintoma? O ciframento rasura o sentido, nesse sentido há uma queda do sentido? Outra possibilidade é que esta falta de cola do sentido vai produzir um certo descuido ou negligência, referindo-se aqui ao termo acídia.

[2] Sède, G Acerca de Gay Saber PruduccIon Editorial Factor Sur Buenos Aires.

 

 

Foto 3- Noite Preparatória

Cartel: um dispositivo para a psicanálise
Por Lúcia Grossi

Sabemos que o saber em psicanálise se constrói no endereçamento, não apenas do sujeito ao analista, mas do próprio analista a seus pares.

Bem antes de Lacan propor o cartel no Ato de Fundação da Escola, em 1964, poderíamos pensar numa pré-história do cartel, no momento em que Freud fundava a psicanálise como prática e como um campo de saber.

No seu caminho de construção de um saber, Freud sempre convocou um outro a quem pudesse endereçar o que pensava. Se não há um outro, o que se pensa pode ser apenas um delírio. O primeiro interlocutor foi Breuer, que se interessava pela histeria como médico, mas que discordava de algumas hipóteses freudianas. A separação dos dois se dá em 1894, antes mesmo da publicação dos Estudos sobre Histeria. O segundo foi Fliess, que incentivava Freud na investigação da sexualidade, enquanto criava a sua própria teoria paranóica da relação sexual. Elegendo um semelhante, Freud encontrava sempre os impasses da relação dual.

A interpretação dos sonhos é um momento de virada na relação com Fliess, quando houve uma separação. Alguns daqueles que assistiam às conferências de Freud na universidade se aproximam dele. Segundo Jones, em outubro de 1902, Freud convida Adler, Kahane, Reitler e Stekel para se encontrarem em sua residência e discutirem suas ideias. Assim começaram as “Noites psicológicas da quarta-feira”. Stekel, conta Jones, costumava expor as discussões semanalmente na edição de domingo do Neues Wiener Tagblatt. Pouco tempo depois, os encontros, que se davam na casa de Freud, passaram a se chamar “Sociedade Psicológica da Quarta-feira”.

Algo da lógica do pequeno grupo já estava no início da história da institucionalização da psicanálise. Curiosamente, era um grupo de quatro aprendizes e Freud. Em 1908, o grupo havia crescido bastante e se tornou a “Sociedade Psicanalítica de Viena”. Em 1910, temos a fundação da Associação Internacional de Psicanálise, que reúne vários grupos de vários países. Muitas foram as crises institucionais, mas até 1918 essas reuniões continuaram a acontecer sempre com a participação de Freud, mas com um número maior de pessoas (entre 10 e 20 participantes).

Lacan desejou que uma nova instituição de psicanalistas pudesse se valer do trabalho coletivo, preservando o trabalho individual. Nesse sentido, a crise no cartel é uma constante, pois sua própria estrutura convoca a dimensão da contingência. Trata-se de um encontro que pode ou não funcionar. Mesmo numa instituição tão grande como é a Associação Mundial de Psicanálise, desejamos manter o cartel, pois acreditamos que nossa formação passa pelo cartel. Penso que o cartel é hoje uma forma de manter a porosidade institucional, de modo que o que está fora circule dentro e o que está dentro circule fora. O cartel é inclusive uma forma de inscrição temporária, o que nos dá certa leveza institucional.

*Lúcia Grossi é psicanalista, membro da EBP. Contato: [email protected]

 

 

 

 

Imagens:

1-Fonte da imagem dos meninos com o pneu (foto de Londres após bombardeio na Segunda Guerra Mundial, autor desconhecido): http://lounge.obviousmag.org/tempo_rei/2015/10/quando-as-criancas-sobrevivem-a-nossa-estupidez.html

2-Cartaz da Noite Preparatória para a XIX Jornada da EBP/MG feito por Marcela Brandão

3- Foto de Lúcia Grossi, Sérgio Mattos e Wellerson Alkmim na Noite Preparatória para a XIX Jornada da EBP/MG