[Radar Carterizante – Nº10] Produção de Lucila M. Darrigo, Nohemí Brown, Maricia Ciscato e Fernanda Costa

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AMOR e aMURO
Lucila Maiorino Darrigo
[Membro EBP/AMP.]

me diz, me diz, me responde, por favor,
pra onde vai o meu amor….
quando o amor acaba?
(Almanaque, Chico Buarque)

Os destinos do amor de transferência. Esta foi minha questão de entrada no cartel “Leitura do Seminário 20”. Não por acaso, evidentemente…

Na ocasião em que fui convidada para ser mais-um desse cartel, encontrava-me num momento muito particular do meu percurso: acabara de interromper uma análise para iniciar outra e, além disso, acabara de pedir minha entrada como membro da Escola.

Essa confluência de fatores, intimamente relacionados, deu uma tonalidade especial ao trabalho naquele cartel. Era a primeira vez que experimentava exercer a função de mais-um, ao mesmo tempo em que estava, de uma outra posição, às voltas com as questões “de sempre”: o que é um analista? O que é uma análise? O que se transmite da psicanálise?

Logo de início, deparei-me com uma afirmação de Lacan, no Seminário, que me impactou: “o amuro é o que aparece em signos bizarros no corpo.” (2008, p. 12)

Eu, que estava às voltas com a questão do amor, deparei-me com o amuro!

Amuro, esse neologismo que debocha do amor, nos diz Miller.

E foi por esse caminho que me orientei no trabalho do cartel: amor de transferência e amuro.

A partir do tema atual na orientação lacaniana de “analisar o falasser”, retomar o amuro, esse outro neologismo de Lacan, parece muito pertinente.

No início da apresentação do tema do X Congresso da AMP, temos com Miller (2013) que “Amuro quer dizer que é preciso atravessar, a cada vez, o muro da linguagem, para tentar cingir mais de perto – não o real – mas o que fazemos em nossa prática analítica.”

E também que “o falasser é um (a)muro, uma palavra agalmática que perfura o muro da linguagem, ajudando-nos a ultrapassá-lo.”

Na conferência de 1972, na Capela de Saint-Anne, intitulada por Lacan “Estou falando com as paredes” (“Je parle aux murs”, no original), encontramos o (a)muro.

Na ocasião, Lacan indica que falar com as paredes é falar sem procurar o sentido para dirigir-se ao Outro. É falar em puro gozo, sem intencionalidade de dizer; falar no vazio do Outro.

No falar com as paredes, então, não emerge o laço com o Outro, mas sim o eco da pulsão na ligação entre a língua e o corpo. Isso é central.

Então, quando Lacan define o amuro como aquilo que aparece em signos bizarros no corpo, está falando do encontro singular da língua com o corpo, escavando aquilo que Freud nomeou de zonas erógenas. O troumatismo. O amuro é aquilo que instala no corpo o modo de gozo de cada um.

Lacan fez do trauma um fato de estrutura para o falasser: é o que ele chama de troumatismo (traumatismo + trou (furo produzido pela linguagem)). É o truque que cada um inventa para preencher o furo no real. “Ali onde não há relação sexual, isso produz traumatismo. Cada um inventa o que pode”, diz Lacan no Seminário 21.

E o amor?

Em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, de 1953, Lacan apresenta um poema de Antoine Tudal, que será retomado na conferência de 1972:

Entre o homem e o amor,
há a mulher.
Entre o homem e a mulher,
há um mundo.
Entre o homem e o mundo,
há um muro.

A relação entre os sexos não existe, pois há um mundo ou um muro entre o homem e a mulher. Para isso se presta o amor: para tentar fazer existir tal relação.

Mas, justamente, “o amor é impotente, mesmo que ele seja recíproco, porque ele ignora que é apenas o desejo de ser UM, o que nos conduz à impossibilidade de estabelecer a relação de dois sexos.”, diz Lacan no Seminário 20 (2008, p. 13).

O amor é impotente e ilusório…

Na conferência “Estou falando com as paredes”, ele indica uma possibilidade: “Para se ter uma ideia sadia do amor, talvez fosse preciso partir de que, quando ele entra em jogo, mas a sério, entre um homem e uma mulher, é sempre com o cacife da castração.” (2011, p. 95), colocando um (a), o objeto a antes do muro na última frase do poema: (a)muro. “O que há entre um homem e uma mulher, não é um muro, é simplesmente o lugar da castração.” (2011, p. 94) “Este muro está em toda parte; (a)muro indica a relação que cada um tem com a castração.” (2011, p. 95)

Então, o que Lacan inventa é de juntar, ao muro da linguagem, o objeto a. Objeto que é inteiramente alheio à questão do sentido. “O sentido é uma pequena borradela acrescentada a esse objeto a com que cada um de vocês tem sua ligação particular. Isso é o que constitui a força dele e, do mesmo modo, a força de cada um de vocês em particular.” (2011, p. 85).

O interessante é que ele inventa isso fazendo ressoar nesse neologismo, o amor. Debocha do amor, apontando que se ele existe, só pode ser desta forma – com a marca da castração, com a marca do furo da inexistência da relação sexual.

Para avançar nesse ponto, voltemos à articulação que Lacan fez de demanda, recusa e oferta no Seminário 19, quando introduz o nó borromeano em seu ensino. Nesse texto, ele classifica esta frase como a verdadeira carta de amuro: “peço-te que me recuses o que te ofereço, porque não é isso” (2012, p. 78-90).

“Não é isso” é justamente o amuro, amarrando o nó demandar, oferecer, recusar. O nó é um apelo ao real como impossível. Apelo no qual o amor tenta ilusoriamente evitar o muro. (2015, p. 38)

Amuro é o amor que não crê na ilusão dos dois que fazem um. Isso porque não nega o irredutível de um gozo que, aninhando-se no falar, faz muro. Mas, ao mesmo tempo que faz muro, faz o objeto a, causa do desejo, enquanto irredutível à demanda. (2015, p. 37)

Retomo aqui a questão que me guiou no cartel: destinos do amor de transferência.

Amor de transferência é repetição. Repetição desse nó demanda, oferta e recusa endereçado ao Outro.

Desde Freud, toda a novidade que a psicanálise vai oferecer como tratamento está baseada em como se responde, do lugar do analista, a esse pedido de amor.

No ponto em que estamos, podemos dizer de forma simples – o que, nem por isso torna a prática analítica algo simples, evidentemente – que o analista, para operar, deve estar advertido e orientado pelo amuro.

Escutar o falasser, advertido de que falar de amor é, em si mesmo, um gozo (2008, p. 90); não responder a essa demanda de amor, esburacando assim a aderência ao amor con-fusão para promover o encontro com o impossível de dizer.

Isso deve estar posto de saída no encontro com aquele que vem em busca de tratar a sua dor. Dor de amor, sempre. Não se faz outra coisa no discurso analítico a não ser falar de amor, nos lembra Lacan no Seminário 20 (2008, p. 89).

Isso que está dado de entrada com o “peço-te que me recuses…”, vai estar na saída, no final de uma análise, respondendo, talvez, à demanda tão insistente de resposta do poeta: Prá onde vai o meu amor, quando o amor acaba?

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Referências:
LACAN, J. Estou falando com as paredes. Rio de Janeiro: JZE, 2011.
LACAN, J. O Seminário, livro 19: … ou pior. Rio de Janeiro: JZE, 2012. Cap. 6, lição de 9 de fevereiro de 1972.
LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. 3. ed. Rio de Janeiro: JZE, 2008.
MANZOTTI, M. Amuro. Scilicet do X Congresso da AMP – O corpo falante, 2015.
MILLER, J.-A. O inconsciente e o corpo falante. Apresentação do X Congresso da AMP, 2013.

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Supervisão: o desejo do analista e seu ato [1] Nohemí Brown

Supervisão ou controle? Mesmo que não tenham as mesmas ressonâncias, supervisão é o termo que se utiliza preferentemente no Brasil para o que, em outros lugares, é nomeado como controle. Ao pensar a função da supervisão e sua relação com a formação do analista, os dois termos abrem interrogantes como: em que consiste essa “super” visão que se espera, de alguém que leva um caso da sua prática para outro? Ou se pensamos no controle, o que se controla no controle? Perguntas para pensar, mas que talvez, nesta mesa, com os trabalhos dos colegas, consigamos precisar melhor. Por enquanto, uma observação de Lacan, de 1975, destacada por Laurent, oferece uma luz. Nas Conferências às universidades americanas, Lacan afirma que no lugar de supervisão seria mais oportuno usar o termo “superaudição”. Isto é, ouvir o que um praticante, através do que diz, pode transmitir daquele que está em análise com ele. É interessante essa observação, pois introduz a dimensão da enunciação analisante.

Uma superaudição que, de alguma maneira, destaca a articulação intrínseca entre a experiência da análise e a supervisão. Sabemos que são dois elementos do tripé da formação que não se confundem, mas que estão estreitamente relacionados. Retomo um recorte que, considero, permite pensar isto.

Um jovem praticante, recém-formado, solicita um horário para análise. Na sessão, coloca que não sabe se realmente quer fazer análise ou supervisão. Tem frequentado cursos de psicanálise e escuta insistentemente que é necessário fazer análise, é um imperativo, mas a prática clínica que está começando lhe angustia e por isso considera que precisa de supervisão. Proponho que traga seus casos para supervisão. Aos poucos, a própria clínica o interroga sobre sua posição. Posição que se vai desvelando na leitura que faz dos pacientes, na escolha dos casos que traz para supervisão e da inquietude diante de suas intervenções que, apesar de produzirem efeitos interessantes nos pacientes, o deixam muito angustiado. É, então, quando realmente solicita análise.

Esse recorte toca, mesmo que singelamente, na complexa relação entre análise e supervisão, sem se confundirem. Mas, especialmente, me ensina sobre o valor da supervisão.

O que pode levar alguém a solicitar supervisão é a se autorizar ou legitimar suas intervenções, diante da falta de garantias da prática clínica; ou até de obter um saber que permita “saber-fazer”, cabe ao supervisor fazer dela, orientado pela psicanálise, pelo real, um espaço de formação. Nesse sentido, o lugar ocupado pelo supervisor é determinante.

Se, por um lado, se espera um saber sobre o caso, por outro, o que precipita a demanda de supervisão é um impasse sobre determinado caso que é fundamental levar em conta. Penso que essas duas dimensões marcam a precisão e a riqueza da supervisão na Orientação Lacaniana.

Com relação à dimensão do saber em jogo na supervisão, ela está presente, se espera, mas cabe dizer que não é o que orienta, mesmo que, em certos momentos, seja necessário fazer apontamentos epistêmicos sobre o caso. O que se torna determinante é a enunciação daquele que supervisiona, isto é, a posição subjetiva.

Leonardo Gorostiza coloca, de maneira esclarecedora, essa articulação. Ele destaca que “o analista que supervisiona não deve transmitir um saber, mas tem de apontar à posição subjetiva de quem está em supervisão, pois o que se supervisiona é um lapso do ato analítico, a posição do analista.” Mas ele acrescenta, a partir da própria experiência como supervisor – um parêntese que me parece muito oportuno – que no início da formação e, em determinados momentos, é necessária certa transmissão de saber, mas sem por isso deixar de apontar à posição do praticante como analista.

Lacan, no Ato de Fundação, destacou que a direção da supervisão implicava assumir os efeitos produzidos. Ele coloca que “por pouco” que uma prática provenha de efeitos analíticos, na supervisão, se espera que se reconheçam como próprios, que se assumam. Ele o diz assim:

Como não ver que a supervisão se impõe desde o momento desses efeitos, antes de mais nada, para proteger aquele que aí comparece na posição de paciente? Acha-se em jogo nisso algo de uma responsabilidade que a realidade impõe ao sujeito, quando praticante, que ele assuma por seu próprio risco. (LACAN, 2003, p. 241. Grifos nossos.)

Se na supervisão se aponta a posição subjetiva ou a posição de “cegueira”, como diz Marie-Hélène Brousse, com relação ao caso, é para que o supervisionando possa assumir os efeitos do seu ato. Fazer a experiência de se reconhecer em sua contingência. E, ao mesmo tempo, serão produzidos efeitos de formação.

Há algo do ato que é incalculável, mas isso não exime da responsabilidade. Poderíamos dizer que, por parte do supervisionando, visa-se a um franqueamento da procura da legitimação à responsabilidade. Por parte do supervisor, trata-se de dividir, de perturbar da boa maneira, para que na análise possa se colocar a trabalho isso que o caso o toca.

O estreito laço entre a supervisão e a análise não está só no início de uma formação. Se em alguns casos a supervisão pode precipitar a procura da análise; quando já se está em análise, em vários momentos, não deixa de ser menos importante, pois, a partir dos casos que precipitam um pedido de supervisão, pode-se destacar o “resto da posição de gozo como sujeito no manejo de seu ser” na sua prática clínica.

É a dimensão ética de uma análise na formação do analista. Que um analista esteja suficientemente analisado para poder ocupar o lugar ao qual é convocado no dispositivo analítico. E a supervisão aponta para isso. É a via da orientação pelo real como uma bússola do desejo do analista e seu ato.

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Referências:
BROUSSE, M.-H. Entrevista: Como Lacan e a orientação lacaniana marcaram e diferenciaram sua prática da supervisão? Correio, Belo Horizonte, n. 73, p. 11, 2013.
GOROSTIZA, L. Entrevista: Como Lacan e a orientação lacaniana marcaram e diferenciaram sua prática da supervisão? Correio, Belo Horizonte, n. 73, p. 9-10, 2013.
LACAN, J. Ato de fundação. [1971] In: ___. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
LAURENT, Éric. Sobre o bom uso da supervisão. Correio, Belo Horizonte, n. 73, p. 25, 2013.

[1] Texto apresentado na XVI Jornada de Cartéis da EBP-Delegação Paraná, no dia 23 de maio de 2015, do cartel: “Questões de Escola: pensar o cartel, pensar a supervisão”.

 

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Texto produto do cartel “Escola e Política”, concluído em novembro de 2015, com Patricia Paterson, Isabel C. R. B. Duarte, Sandra Landim, Thereza de Felice e Maricia Ciscato (mais-um)
Por Maricia Ciscato

O que é a política da psicanálise? Esta pergunta é, no fundo, meu ponto de partida na Escola, causa de meu trabalho na segurança pública do Rio de Janeiro e na minha clínica, ponto que me atravessa e me questiona em toda a minha formação. Foi ela também que me impulsionou para este cartel. Nunca fui afeita às políticas “comuns”, não fiz parte de movimento estudantil, não me filiei a qualquer partido, mas, ao mesmo tempo, sempre me senti envolvida até as entranhas em uma “causa difícil de dizer”.

Um grande conhecido meu, sociólogo, envolvido com as mais acirradas discussões políticas partidárias da esquerda brasileira, costuma me dizer que eu sou a pessoa “mais de esquerda” que ele já conheceu. O que será que é ser mais de esquerda do que as pessoas de esquerda, pergunto-me sempre. Será que a gente vai esquerdando, esquerdando, até se revirar em si mesmo? Será que a gente se revira tanto, a ponto de se perder dos polos leste e oeste? Qual a orientação corporal que dá norte quando a localização que se apresenta é uma situada “mais além da esquerda”?

A política da psicanálise tem disso. Ela nos tira o sentido certo; a certeza de que norte, sul, leste e oeste são dados de partida (ou por partidos). Também nos tira a certeza de que alguém saberá dizer onde se localiza cada canto de teu ser. Essa certeza é, a meu ver, uma das mais difíceis de se deixar cair. Esse fio de dúvida, que persiste até o limite, é ele quem sustenta a transferência e, em seu paradoxo, permite que se avance (em direção a sua queda).

Sabe-se, em uma análise, que se terá que abrir mão do Outro como norte; que não haverá como extrair do Outro os pontos cardeais de teu rumo. Essa é a melhor pista que temos para nos encontrarmos com o que eu entendo hoje por “política da psicanálise”. Aventuramo-nos – por necessidade – a falar de um lugar de “verdade”. De um lugar de onde não se fala tendo as categorias comuns como norte. De um lugar no qual “só se fala só” – mas, ali, não há anagrama, pois não se é no espelho; ou melhor, existe-se para além do espelho.

O que retorna dessa experiência não é a imagem organizada de teu corpo, nem a casa em ordem. Quando podemos olhar, o que vemos é apenas uma mancha. Uma mancha estranha que vibra e que nos faz gozar. Notamos o quão íntimos somos dela. O quanto pulsamos nas ondas de sua vibração. E é aí que nos deparamos também com nosso ponto de horror.

Eis o ponto preciso da segregação. Eis também o ponto em que a política da psicanálise incide como um raio. Ao nos levar a caminhar só, a experiência de análise nos leva a ter em companhia aquela mancha, ponto de horror que se desejava eliminar, e que passa, nessa reversão, a ser percebido como nosso ponto de vibração. Revira-se, assim, na operação analítica, a ânsia por segregar a uma responsabilização muito especial, que implica uma espécie de “comoverse” a partir daquilo que antes horrorizava.

Quando nosso norte deixa de ser o Outro e passa a contar com essa espécie de “mancha vibratória de gozo”, estamos com os dois pés fincados na política da psicanálise. Nesse sentido, entendo hoje a política da psicanálise não como uma ideologia ou como uma ideia a ser seguida, mas como um modo de fazer, um modo de intervir no mundo, que conta com uma vibração única, capaz de ressoar em lugares, de outro modo, inalcançáveis. Não sei se isso é pouco ou se isso é muito, mas sei que é o que temos; que é com o que podemos contar para nos posicionarmos diante do horror, sem abrir mão da psicanálise.

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Leituras do cartel:
BROUSSE, M.-H. O inconsciente é a política.
LACAN, J. A proposição de 9 de outubro de 1967.
MILER, J.-A. O banquete dos analistas.

 

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Cartel: laço inédito de uma escola mínima?
Fernanda Costa [1] 

Para ele uma transa típica / O amor em seu formato mínimo /
O corpo se expressando clínico / Da triste solidão a rubrica
(Samuel Rosa, Skank – Formato mínimo)

Após falar no cartel sobre a escrita deste trabalho (já em curso), fui surpreendida por um ato falho. Ao dizer Escola Brasileira de Psicanálise/Seção Minas, substituí por “Seção Mínima”. Todos riram, inclusive eu. Contudo, além do efeito de chiste, ficou para mim a impressão de uma justa palavra, efeito de saber da elaboração em cartel. Decidi seguir suas pistas.

Desde o início, este texto interrogava sobre a proposta de Lacan em “D’écolage” de que os psicanalistas que o seguissem criassem um “laço social jamais surgido até então” (LACAN, 2010, p. 14) e que o cartel fosse o “órgão de base” (LACAN, 2010, p. 14) dessa experiência. Minha questão era sobre esse laço inédito. Qual seria sua originalidade? E qual a função do cartel aí? Por fim, o que isso teria a ver com essa “escola de psicanálise mínima” do meu ato falho?

Não sem um certo investimento, recordei-me de uma música do Skank chamada Formato mínimo, a qual já me referi várias vezes como “a música da inexistência da relação sexual”. Nesta, tudo começa em uma festa: “ela procurava um príncipe, / ele procurava a próxima / […] / ele reparou nos óculos, / ela reparou nas vírgulas”. A partir daí, um súbito e breve enlace precede um rompimento decisivo. Dessa forma, a letra de Samuel Rosa narra a noite de um casal fugaz cuja incompatibilidade de desejos e fantasias atesta a impossibilidade de haver, para o ser humano, uma simetria no campo sexual. No desfecho, o “amor em seu formato mínimo” designa a tristeza de um laço em que a singularidade e o real da inexistência da relação sexual produzem solidão, vivida como uma ruptura.

Lembrar dessa música me fez pensar que, de certa forma, a rubrica da solidão também está presente no projeto de Lacan em “D’écolage”. Aliás, desse título pode-se extrair uma orientação ética no que se refere à comunidade dos analistas. A polifonia da palavra francesa nos permite ler: desescolarizar e descolar para decolar! E é exatamente esse texto que inscreve o ato de Lacan, que, em um mesmo movimento, dissolveu uma escola e inaugurou a Causa Freudiana. Nesta, o cartel contribuiria por ser um lugar onde vários poderiam enlaçar e produzir “descolados”. Ou seja, uma coletividade que não abre mão da solidão de cada um, da singularidade.

Nesse sentido, a escola mínima se referiria a um laço que acolhe o real da relação sexual que não cessa de não se escrever. Não estaria aí a originalidade desse laço e a contribuição do cartel? Um convite para que, diante do impossível, cada um trabalhe para fazer litoral, para achar sua letra na “borda no furo no saber” (LACAN, 1998, p. 199). E, assim, para além do amor, do desencontro e da ruptura, a solidão poderia (quem sabe?) cessar de não se escrever. E, como efeito, ao invés de tristeza, gaio saber[2].

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Referências:
LACAN, J. D’écolage. Manual de cartéis. Belo Horizonte: Scriptum, 2010. p. 13-16.
LACAN, J. O Seminário, livro 18: De um discurso que não fosse semblante. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
MATTOS, S. Uma crise original. Apresentado na Noite Preparatória para a XIX Jornada de Cartéis da EBP/MG. Inédito.

[1] Cartelizantes do cartel: Anamáris Pinto, Cristiana Ramos Ferreira, Fernanda Costa, Lásaro Elias Rosa (mais-um), Marcela Brandão, Margareth Ferraz, Marta Monteiro, Wellerson Alkimim.
[2] Faço aqui uma referência ao trabalho de Sérgio de Mattos, na Noite Preparatória para esta Jornada, que apresentou o gaio saber como “um saber alegre” que um cartel pode fazer emergir.

 

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Imagens:
1. Armadura relógio, foto de Daniel Mansur, obra do Coletivo Gambiologia
2. Coração, ilustração de Xande Perocco
3. Capa revista Facta2, foto de Nidin Sanches, obra do Coletivo Gambiologia
4. Canvas diy, foto de Pedro David, obra de Fred Paulino e Lucas Mafra
5. Oficina de Jean Baptiste, foto de Nidin Sanches, obra ganso do Coletivo Gambiologia