[Radar Carterizante – Nº5] Produção de Fernanda Otoni Brisset.

Apresentamos nesta edição do Radar cartelizante, o texto de Fernanda Otoni, atual diretora secretária de cartéis e intercâmbio da EBP.

Trata-se de um texto convocatório e cheio de entusiasmo que pode servir de orientador nos momentos de impasse em relação ao trabalho de Escola.
“A cada um, o trabalho de sua enunciação”. O cartel, como uma verdadeira máquina de guerra contra o discurso do mestre, mais do que nunca, com toda sua atualidade, deve ser tomado como órgão base da Escola.

Boa leitura!
Lucila M Darrigo

 

A máquina de guerra de Lacan
Por Fernanda Otoni Brisset

“Não somos uma Escola que depõe suas armas
 face aos impasses da civilização”

(Declaração da Escola Una, 2000)
O cartel é o órgão de base para o trabalho da Escola de Lacan. É um pequeno grupo que se reune para conversar quando surge um impasse, uma encruzilhada, com a condição de se abster da reverência ao mestre. Sim! O cartel lacaniano é irreverente, provoca “buracos na cabeça”: são quatro mais um zelador que cuida para que nenhum Senhor encontre ali seu assento. Da solidão e desconforto de uma questão instalada, quem se lança nessa conversa, não sabe onde vai chegar. Apostam no saber imprevisto que surge da inquietude de cada um e ressoa na forma de ua elaboração sustentada, de crítica, de debate, de uma resposta: uma enunciação que cai da ponta da língua.

Ao abrir esse caminho, anti-didático e anti-autoritário, Lacan fez do cartel umamáquina de Guerra (Miller, 1994) contra o discurso do mestre, um lugar para a Escola elaborar suas questões e seu laço com sua época, oferecendo as condições para ler o choque entre o um e o múltiplo, entre a experiência analítica e o trabalho de Escola, entre a causa analítica e o sintoma social.

Ele desejou que sua Escola decolasse, descolada da cena magistral, servindo-se do trabalho cartelizante que não se acomoda à rotina que faz dormir. O cartel do passe assim o demontra. É notável! Uma máquina que lança bombas de enunciação, produzindo abalos inéditos onde quer que o mestre ouse se instalar. Cada nomeação de AE transporta a matéria viva que divide, desloca, enuncia e comove em favor da política lacaniana.

Lacan planejou que todo trabalho de escola, seja para realização de suas tarefas, elucidação de seus impasses e suas crises, também passassem pelo cartel. Contudo, esse plano jamais se realizou. (Miller, 1994) O cartel como orgão de base carece, de tempos em tempos, de entusiasmo. A rotina o engole! Miller constata esse fato e interroga-o com a hipótese de que talvez não se possa “inibir a crença de carismas, a demanda de carisma. (Miller,1994) O mestre não descansa, está sempre zanzando por aí!

Portanto, no tempo de corpos falantes, do império das imagens e dos discursos fundamentalistas, a Escola não pode prescindir da lógica do cartel. O pai não virá com sua tábua de salvação, a resposta não cairá dos céus. Resta a cada um o trabalho de sua enunciação.  O cartel é nossa ferramenta para descolar o enxame, dispersar a massa e despertar o singular, impossível de dizer, instalado no pomo da discórdia. Trata-se sobretudo de um princípio para seguir adiante, ao bem dizer a radical diferença, engajando-nos na conversa viva sobre os impasses e desafios da psicanálise face ao real contemporâneo e a formação do analista.

A atualidade do plano Lacan surpreende! É hora de colocá-lo em ação. Usar essa máquina que Lacan nos confiou para abalar e dividir o Um absoluto que vocifera na base do discurso da segregação.  Temos arma melhor para vencê-lo? Não tenho dúvidas que será ao falar em nome próprio, largar mão do mestre e provar o gosto e entusiasmo da decolagem, a cada vez, que avançaremos nessa batalha!

Avançemos, com entusiasmo: não temos outra escolha!
Referências:

LACAN, J. D’Écolage – Seminário de 11/ 03/ 1980. In: Ornicar, Paris, n. 20 e 21, 1980

LACAN, J. Ato de fundação. (1964)

MILLER, J-A. Cinco variaçãoes sobre o tema da elaboração provocada. Texto traduzido por Stella Jimenez e publicado em Jimenez, S. (org.). O Cartel: conceito e funcionamento na escola de Lacan. Rio de Janeiro: Ed. Campus, 1994, pp. 1-10.
MILLER, J-A. Le cartel au centre d’une école de psychanalyse (1994). Disponível em:http://www.causefreudienne.net/cartels-dans- les-textes/

 

 

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