[Radar Carterizante – Nº4] Produção de Lucas Fraga Gomes e Cristiana Gallo.

Neste RADAR CARTELIZANTE, dois textos que fazem série e, ao mesmo tempo, apontam para a diversidade e amplitude de usos deste dispositivo criado por Lacan: o cartel – Lucas Fraga Gomes, da Delegação do ES, nos brinda com o texto em que faz um resgate de colocações de Lacan sobre o trabalho em cartel e formula, a partir daí, uma hipótese de que o único trabalho possível em grupo para Lacan seria o de cartel. Vale a leitura!

Em seguida, temos o texto de Cristiana Gallo, da EBP-SP, relatando a experiência de um cartel que trabalha as questões atuais da AMP, pulsando ao vivo em encontros abertos ao público. A ideia é que o cartel pudesse provocar e ser provocado com a participação do público numa função de despertar tanto para os temas como para o dispositivo.

Bela iniciativa para agalmatizar o cartel!

Desfrutem!

 

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O cartel como aposta política de Lacan
Por Lucas Fraga Gomes

Em 1964 Lacan fundou a Escola Francesa de Psicanálise. Em seu “Ato de fundação” ele fala que esta se relaciona a um trabalho e que seu dispositivo de execução é o cartel. Lacan, então, mostra em que consiste o cartel: um pequeno grupo, três no mínimo e cinco no máximo, sendo quatro a justa medida, mais-um (responsável pela seleção, discussão e encaminhamento do trabalho de cada um). Lacan afirma que, após um tempo de trabalho, esse cartel se dissolve e realiza uma permuta entre os membros.

Posteriormente, em um encontro com psicanalistas de sua Escola, já em 1975 – portanto, Lacan já estava envolvido no estudo dos nós borromeanos -, Lacan convoca uma reunião extraordinária para falar a respeito do cartel. Ao fim, ele evidencia a importância do cartel para sua Escola e coloca ainda que ninguém havia atravessado uma experiência de cartelizante:

MUSTAFÁ SAFOUAN – […] Na medida em que se trata, justamente, de dissipar o máximo possível os efeitos do caciquismo, a permutação é necessária. Mas isto foi feito?
JACQUES LACAN – Não, não foi feito nunca.
MUSTAFÁ SAFOUAN – […] Na verdade, todo mundo está num cartel? Será que eu estou num cartel? Será que todo mundo trabalha num cartel? Eu não posso dizer que trabalhe num cartel.
JACQUES LACAN – Absolutamente. Não existe verdadeira realização do cartel de nenhuma espécie. (LACAN, p. 98).

Esta conferência chamou bastante minha atenção, pois, como dito anteriormente, Lacan encontrava-se em uma fase avançada de seu ensino, em que ele havia inclusive revisado vários conceitos que o havia consagrado. Porém, tal como demonstrado na citação acima, mesmo ainda não tendo sido efetivamente praticado, Lacan mantém o cartel como dispositivo fundamental de trabalho de sua Escola. Por quê?

A resposta a minha questão, ou seja, o porquê da insistência de Lacan com o cartel, talvez se encontre em uma formulação do filósofo francês Alain Badiou. Este, em uma conferência realizada no Brasil intitulada “Lacan e o real”, afirma:

“[…] O filósofo tapa o buraco da política. Ele faz crer que a ação coletiva pode ter um sentido sólido, ele sonha indefinidamente com uma política racional. Lacan tem uma outra teoria do grupo. A tese lacaniana final é que a única pertinência de um grupo é uma breve sequência medida ou mensurada por um trabalho explícito. Nenhum coletivo, nenhum grupo tem uma legitimidade intrínseca; nem mesmo o projeto de fazer alguma coisa legitima o grupo. É preciso distinguir o projeto-de-fazer e o próprio fazer […] A tese de Lacan é, nesse sentido, que não há política real, pois que o único real de um coletivo é um buraco entre duas ações dissemelhantes […].” (BADIOU, 1999, p. 68-69)

Partindo, então, do que foi colocado pelo filósofo francês, será que é possível afirmar que a insistência de Lacan com o cartel não o envolve apenas como dispositivo fundamental para sua Escola e sim como a única possibilidade de trabalho de um grupo? Ou ainda, que grupo para Lacan só tinha pertinência se fosse ajustado nos moldes de um cartel, isto é, um pequeno grupo se reúne, realiza um trabalho e depois se dissolve?

Caminhando nessa direção, é extremamente interessante um texto pouco conhecido de Lacan, intitulado “Senhor A.” (dirigido a Althusser), em que o psicanalista fala, entre outras coisas, sobre o cartel. Em especial, em uma passagem, que muito chama a atenção, afirma: “[…] Vamos! Reúnam-se vários, juntem-se o tempo necessário para fazer alguma coisa e em seguida dissolvam-se para fazer outra coisa… […]” (LACAN, 1980).

Ora, neste momento de meu estudo parece-me que não é forçoso afirmar que a insistência de Lacan com o cartel não é apenas por este ser um dos órgãos base da sua Escola, mas é de certa forma a resposta que Lacan dá a qualquer tentativa de trabalho em grupo, extrapolando assim os próprios limites da sua Escola.

Referências:
BADIOU, A. Conferências de Alain Badiou no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
LACAN, J. Ato de fundação. (1964) In: ___. Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
LACAN, J. El Senor A. 1980. Disponível em: clique aqui.
LACAN, J. Sessão plenária de sábado à tarde do “MAIS UMA”. Documentos para uma Escola. Revista da Escola Letra Freudiana, Rio de Janeiro, n. 0. Circulação Interna.
MILLER, J.-A. Lacan e a política. Opção Lacaniana, Rio de Janeiro, n. 40, 2004.
MILLER, J.-A. Intuições Milanesas I. Disponível em: clique aqui.
MILLER, J.-A. Intuições milanesas II. Disponível em: clique aqui.

 

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Inconsciente e corpo falante
Por Cristiana Gallo

Há um ano este cartel constituiu-se com a proposta de nos reunirmos a partir de nossas questões em torno do tema do próximo Congresso da AMP, mas também com “um há mais”: desejávamos colocar o que causava o nosso trabalho a um público que poderia, ao mesmo tempo, provocar e ser provocado!

Este cartel que transmite, quando transmite a partir da causa de cada um, parece de fato exercer uma função de despertar.

Desperta para o cartel enquanto dispositivo da Escola, aquele que fundamenta, dá corpo para a circulação de um discurso.

Com isto, temos alternado reuniões abertas com reuniões fechadas aos participantes do cartel, numa certa pulsação.

No dia 23.10.2015 o cartel esteve presente a uma atividade preparatória à Jornada da EBP-SP, realizada pela Diretoria de Intercâmbio e Cartéis e que contou com o apoio do Centro Cultural Palace em Ribeirão Preto que abriu o seu auditório para a participação de um novo público.

Aproximadamente 80 pessoas acompanharam três breves apresentações de Eduardo Benedicto, Maria Célia Kato e Paola Salinas que visaram uma articulação da questão particular de cada um neste cartel com a temática da Jornada, seguidas por comentários de Fabíola Ramon, Cristiana Gallo e Sílvia Sato, abrindo-se para um tempo de conversa com o público presente.

Nesta oportunidade, em particular, tratou-se de buscar transmitir algo do funcionamento do cartel, com o interesse de seguir promovendo a abertura da orientação lacaniana para a cidade e ainda apresentar o tema das Jornadas.

Neste sentido, efetivamente buscou-se transmitir de um outro lugar: transmitir a clínica do falasser em termos de sua atualidade e como o analista se orienta hoje.

Numa articulação com a temática da Jornada, os textos permitiram um início de percurso do corpo falante ao corpo de mulher, naquilo que toca o não todo, o vazio – vazio de sentido e referido ao gozo sem a medida fálica.

Falou-se do som, aquele que repercute no corpo, nas palavras de Eduardo, caminhando para a questão da lalíngua, naquilo que se antecipa ao significante e ao próprio corpo que se constitui enquanto corpo especular: tal questão foi trazida por Maria Célia e se expressou em termos clínicos, fazendo pensar na clínica com adolescentes. Ainda na clínica, o texto de Paola nos colocou em relação com os impasses e questões da clínica com as mulheres, notadamente no que toca a devastação entre mãe e filha.
Cartel composto por Cristiana Gallo, Eduardo Benedicto, Emmanuel Mello, Fabíola Ramon, Maria Célia Reinaldo Kato, Paola Salinas (Mais-um) e Sílvia Sato.

 

 

Imagem (raiz): Denatureza, Henrique Oliveira.

Imagem (redes vermelhas):  Tunga, Matthew Barney.

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