[Radar Carterizante – Nº2] Produção de Larissa Souto Maior, Sarita Gelbert e Dinah Kleve.

Dois relatos de experiências de cartel e um poema compõem esta edição do Radar cartelizante.

O primeiro relato vem da Seção Pernambuco, escrito por Larissa Souto Maior, contando sua descoberta do dispositivo do cartel como um espaço para construir sua relação singular com a causa analítica, não sem os outros.
O segundo relato, redigido por Sarita Gelbert – diretora secretária de cartéis e intercâmbio da Seção RJ –, conta a experiência da Jornada de cartéis nesta Seção, onde o trabalho de cartéis já está instituído como prática e com muitos produtos.
O poema, escrito por Dinah Kleve, é o testemunho dessa mesma experiência na Seção RJ, com seu toque de arte!
Os três escritos dão mostra do vivo da experiência de cartel como porta de entrada e, ao mesmo tempo, como órgão de base de nossa Escola.

 

lightning-strike-thunder-bolt

I Jornada de cartéis-relâmpago EBP-PE
Por Larissa Souto Maior

Ao iniciar meu percurso na psicanálise, deparei-me com um desafio: o saber de que trata não é um saber pronto a ser ensinado por um mestre e aplicado no dia a dia na clínica. Trata-se de algo diferente: um saber que deve ser apreendido na experiência singular de cada um com o inconsciente.
Algo me encanta e, ao mesmo tempo, inquieta-me no decorrer deste caminho: não há garantias para que essa formação ocorra. A análise, por si só, não é uma garantia. A participação em cursos e seminários também não. Não há uma verdade a ser ensinada, aprendida e reproduzida, mas uma elaboração a ser feita a partir da própria análise. É preciso permanentemente elaborar a falta para, então, poder lidar com a singularidade de cada caso.
Apesar de não existirem garantias na formação, no Ato de Fundação da Escola, em 1964, Lacan deu espaço ao cartel enquanto dispositivo de trabalho e como lugar para a formação do psicanalista. Esse dispositivo integrou o tripé da formação, em conjunto com a supervisão e a análise pessoal.
Assim, diante da relevância desse dispositivo e pensando em incentivar e proporcionar uma experiência de cartel, os participantes do Curso de Psicanálise de Orientação Lacaniana foram convidados a formar cartéis-relâmpago como última atividade do semestre. Dividiram-se, então, em cinco cartéis: Do sintoma ao sinthoma; O sintoma e a imagem; O amor e o sintoma e O sintoma na criança, sendo este o tema escolhido por dois dos cartéis.
O encontro dos cartelizantes com o mais-um se deu em apenas um dia, mas o suficiente para surpreender-me ao perceber que não se trata de construir um saber acabado ou finalizar uma questão, mas de incitar e provocar a elaboração de um saber singular, uma produção individual. Surpreendente também foi dar-me conta de que o mais-um não estaria ali simplesmente para dar respostas prontas, mas para, ele próprio, participar da elaboração de algo individual. Acabei, assim, descobrindo o mais-um enquanto função.
A experiência do cartel-relâmpago proporcionada pelo curso foi enriquecedora na minha formação, principalmente por fazer aparecer o entusiasmo de produzir um novo saber e fazer surgir um desejo de fazer cartel. Passei a compreender o cartel como um lugar para produção do saber próprio do analista, ou seja, um saber não sabido, não-todo.
O cartel-relâmpago pôde oferecer uma rápida experiência sobre como articular o saber produzido em análise com o saber teórico. Nesse espaço, comecei a construir minha relação singular com a causa analítica, que, apesar de singular, não ocorre sem outros.
Em 18 de junho, aconteceu a I Jornada de Cartéis-relâmpago para a apresentação da produção individual de cada cartelizante. Cada um com seu estilo e seu desejo, algo em comum perpassou os trabalhos: o surgimento de novos questionamentos a partir das leituras e discussões e de um saber não acabado. A expectativa é que esses questionamentos sejam levados adiante e, quem sabe, deem origem a novos cartéis.
Mãos à obra!

 

extra

Notícias da Jornada de Cartéis EBP-RJ
Por Sarita Gelbert

O convite à enunciação aos cartelizantes da EBP nos proporcionou um encontro que uniu psicanálise, arte e política de forma inspirada e tocante.
Foram quinze trabalhos que conversaram entre si, com grande contribuição da convidada mineira Fernanda Otoni, Diretora Secretária da EBP, que, recortando ditos de cada um, foi tecendo um verdadeiro bordado psicanalítico. A participação da plateia, que lotou a sede da EBP-Rio, possibilitou uma conversação animada, permitindo que os temas abordados nos trabalhos fossem ricamente debatidos.
Agradecemos a todos os participantes que fizeram desta Jornada uma reafirmação da força do dispositivo do cartel em nossa Escola. Agradecemos também à Fernanda e à Stella Gimenez, que encerraram falando respectivamente da Ação Lacaniana e do trabalho do Mais-Um. A nossa diretoria, organizada em cartel, trabalhou com afinco e alegria e foi amplamente gratificada pela resposta obtida.

 

Screen+shot+2016-01-10+at+10.07.07+PM

Poema Cartelizante
Por Dinah Kleve

a-Bordados na Jornada
Nome e número mais um.
Fazer borda do embaraço.
A idade, jovem.
A cidade, é.
O saber, no bolso.
O impossível de dizer, se escreve.
Porno – grafia.
Fica à vontade.
Modéstia ativa x modéstia às favas. Contadas.
A fantasia, imposta.
A vergonha, alheia.
O Outro…
O imperativo das imagens.
O impossível da relação.
A oferta, infinita.
Ou o seu dinheiro de volta.
Ou a sua libra intacta.
Skabozinhos, uma pedra, uma pedra, uma pedra e, talvez, uma inscrição.

Palavras-chave da postagem