[Radar Carterizante – Nº3] Produção de Bartyra Ribeiro de Castro.

O Radar Cartelizante traz nesta edição a contribuição de Bartyra Ribeiro de Castro, colega da Delegação do ES. Produto de um cartel inscrito na EOL, o texto dá um ar internacional para este espaço. A Escola é UNA nos trabalhos de cartéis também! Bartyra compartilha conosco o trabalho de sua questão no cartel: há um sujeito no autismo? – ­resultando num texto denso e orientador.

Boa leitura a todos!

 

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Qual o estatuto de sujeito no autismo?
Por Bartyra Ribeiro de Castro

Esta questão norteia a minha pesquisa no cartel inscrito na EOL, em março deste ano, sobre o autismo. O grupo é formado por Gustavo Stiglitz (mais-um), Rachel Amin, Marcela Decourt e eu.

A questão surgiu a partir das inúmeras referências a sujeitos autistas nos textos e à relevância, cada vez mais premente, da abordagem dessa clínica pela via do parlêtre. Quanto mais estudamos o tema, mais nos deparamos com a inquestionável contribuição do ultimíssimo ensino de Lacan quanto às possibilidades de tratamento do autismo.

Nesse sentido, a proposta de Rosine e Robert Lefort – de que o autismo seria uma quarta estrutura, distinta da Neurose, da Psicose e da Perversão – abre caminho para que alguns autores como Éric Laurent e Jean-Claude Maleval debatam sobre a pertinência dessa assertiva.

O casal Lefort sustenta que essa estrutura se baseia na pulsão de destruição e na imutabilidade. Eles elencaram sete fatores fundamentais: 1) Violência e Destruição – pela ausência de linguagem comunicativa e, sobretudo, pela falta de contato afetivo; 2) A ausência radical do Outro – “o autista primário precoce não encontra esta representação significante do S1 [com S2]. A palavra do Outro não o representa, tornando-se intrusiva e lhe causando horror, provocando violência. Esta palavra do Outro é do real”. Assim, sem o conector significante, o objeto da demanda ao Outro é impossível de se formular; 3) Não há objeto pulsional – o Outro não comparece como portador do objeto, uma vez que está ausente; 4) o Duplo – a falta de representação significante implica numa não divisão subjetiva, o que acarreta na ausência correlativa de um resto (a). O duplo vem, neste lugar, com os mesmos traços de não divisão, estabelecer um modo de laço do autista com o mundo, alojando o vivo do autista; 5) O espelho no real – “quando não há Outro, este é deslocado para o real do pequeno outro” (Marie-Françoise); 6)Tudo é real – qualquer encontro com o espelho no real é sem mediação simbólica; 7) A questão do (a) e do (-Ψ) – sem divisão subjetiva, o resto e a sexuação ficam comprometidos. Assim, sem Outro simbolizado, sem S2, sem objeto pulsional localizado no Outro, a hipersensibilidade sensorial, o empuxe à destruição do objeto e o mutismo aparecem como defesas radicais à angústia que se apresenta avassaladora.

Jean-Claude Maleval comenta que Rosine e Robert Lefort sustentariam melhor a tese de uma estrutura para o autismo se somente se baseassem na imutabilidade e na não articulação S1-S2. Somente esses dois fatores já bastariam para a tese.

Jacques-Alain Miller, em «O monólogo da Apparola», nos convoca a pensar que o autismo está ligado a uma aparelhagem de gozo, não a uma estrutura de linguagem, em que a palavra serve ao gozo mais que à comunicação (ou quase nunca).

Eu sustento, assim, a impossibilidade de se tomar o autista como sujeito, uma vez que foge completamente à definição lacaniana (representado entre dois significantes). Não há sujeito no autismo.

O autista é um parlêtre, isto é, um ser tocado pelo significante no corpo, inserido na linguagem, mas não no discurso. Um ser que sofre os efeitos do acontecimento de corpo e o demonstra em sua sintomatologia de forma bastante perceptível. No autismo, temos um S1 radicalmente separado de S2, não se remetendo a nenhum S2, mas que se manifesta pela sua repetição, uma iteração que, fora de sentido, pode remeter o autista à angústia. Aqui, segundo Éric Laurent em A batalha do autismo, tem-se um gozo que não se apaga e que faz com que “toda palavra possa provocar terror”, “pela ação direta, sem mediação, do significante sobre o corpo”.

Conforme Lacan, na Conferência de Genebra, embora assim não o nomeie – parlêtre, no autismo, assim como na esquizofrenia, há algo que se congela e que os torna “personagens bastante verbosos”, isto é, se comunicam sem colocarem em jogo o gozo com o objeto vocal. “Como se comunicar sem colocar em jogo o objeto de gozo vocal? Alguns encontram a solução com a linguagem de gestos, ou de signos, alguns passam à escrita ou à comunicação facilitada. A maior parte dos autistas de alto nível fala corretamente, mas sem dizer. Mas, sobretudo, sendo verbosos.” Falam linguagem de papagaios, falam sem dizer, e com imensa dificuldade de se colocarem no lugar do enunciado.

Jacques-Alain Miller, em El Ultimissimo Lacan, quando nos fala de inconsciente real, aponta-nos para o Um que sabe experimentar o gozo – o gozo do Um. Éric Laurent exemplifica as manifestações clínicas do gozo do Um da seguinte forma: 1) a vontade de imutabilidade (sameness), já descrita por Kanner – crianças governadas por um “desejo todo-poderoso de solidão e de imutabilidade”; 2) frases espontâneas – que comparecem mais como holófrases radicais que como mensagens interrompidas (como nas psicoses) – e lembra Lacan, no Seminário 1, quando disse: “há frases espontâneas, expressões, que não podem se decompor e que relacionam-se com uma situação tomada em conjunto – são as holófrases” – “… as formas que podem adotar na linguagem, o regime do significante isolado, ou completamente só [tout-seul]. Nesta perspectiva, uma ‘frase espontânea’ ou uma vocalização isolada deve ser considerada, não como uma palavra, mas como uma ‘situação do corpo’, tomada em seu conjunto, nas dimensões real, simbólica e imaginária. … que podem surgir numa situação de tensão extrema ou de angústia”. A emissão de holófrases é, muitas vezes, vivida pelo autista como perda de pedaços de seu corpo, como automutilações, pois ceder deste gozo vocal implica perder algo cravado no corpo e do qual se extrai um gozo. “A dissociação entre voz e linguagem está no princípio do autismo”, “[…] é experimentada como enigmática e dolorosa, mas se impõe à vontade”, deliberadamente.

Em relação à psicose, os Leforts, Éric Laurent e Jean-Claude Maleval insistem em demonstrar as diferenças, sendo que Maleval ressalta: 1) a ausência de delírio e de alucinações verbais (raras nos autistas, pois nestes, uma vez que não há Outro, o som escutado seria o dos murmúrios da língua no vazio do corpo); 2) a vontade de imutabilidade – antagônica à ironia (traço fundamental da esquizofrenia); 3) a ausência de desencadeamento (trata-se de um ‘desde muito cedo e sempre assim’); 4) a especificidade das produções escritas (falam de si mesmos, relatando seu estado autístico); 5) o fato clínico de que autismo evolui para autismo (de Kanner a Asperger).

A sintomatologia do autismo apresenta distúrbios de linguagem, de identidade e do gozo que pertencem à clínica do Nome do Pai. Isto pode levá-los a serem considerados, muitas vezes, psicóticos. No entanto, a forclusão do Nome do Pai não deve ser o parâmetro diferencial entre as duas clínicas, tão francamente distintas quando pesquisadas de forma detalhada.

O autismo é considerado um funcionamento psíquico específico, caracterizado por uma retenção dos objetos pulsionais (especialmente a voz) e por um retorno do gozo sobre uma borda dinâmica – o objeto autístico, o duplo e a ilha de competência.

Bartyra Ribeiro de Castro é membro da EBP/AMP.

Texto apresentado em abril de 2015 na Noite de Cartéis da EBP-Delegação ES.

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