[Radar Carterizante – Nº1] Produção de Paula Legey, cartel “Escola e Política” e Dinah Kleve.

Bem-vindos ao Radar Cartelizante! O Radar será um espaço de compartilhamento de produções dos Cartéis da EBP. Inauguramos com três produções. Em resposta ao movimento de colocar os analistas para falar sobre a redução da maioridade penal no Brasil, recebemos a contribuição de dois textos cartelizantes da Seção Rio: “Lei e gozo: entre imperativo e segregação”, redigido por Paula Legey, e “Idade penal e segregação”, redigido pelos integrantes do cartel composto por Isabel do Rêgo B. Duarte, Sandra Landim, Patrícia Paterson, Thereza de Felice e Maricia Ciscato (mais-um). O terceiro texto, “Analista cartelizante”, é o depoimento de Dinah Kleve, também da Seção Rio, sobre a sua experiência em cartel. Convidamos todos à leitura e aguardamos novas contribuições!

Boa leitura!

 

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Lei e gozo: entre imperativo e segregação
por Paula Legey

E “Uma fantasia”, Miller retomou uma frase de Lacan em que este indica a subida do objeto a ao zênite social. Isso equivale ao declínio do ideal veiculado pela lei paterna. O Nome do pai é uma ferramenta de tratamento e localização de gozo; a função paterna destaca a causa de desejo. Por isso, Lacan afirma que a lei e o desejo são a mesma coisa. Por outro lado, a lei do supereu é uma exigência massificadora, sem furo: o objeto se situa no zênite da civilização como supereu. A queda da lei paterna como horizonte organizador abre espaço para exigências de gozo desenfreadas, de um lado, e para uma ascensão de respostas totalitárias, de outro. Os dois mecanismos, como indicado em “Kant com Sade”, ignoram os limites inscritos na linguagem, do mesmo modo que ignoram o que há de singular na maneira de satisfação. Talvez por isso, na Proposição, Lacan vislumbre uma ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação, uma exclusão da diferença na massificação.
A propósito da adolescência, essa questão se torna ainda mais urgente. Como indica Miller no recente texto “Em direção à adolescência”, é sobre eles que se fazem sentir com maior intensidade os efeitos da ordem simbólica em mutação e, em especial, o declínio do patriarcado. Na ausência da direção da causa surgem respostas totalitárias, seja na participação em grupos fechados, seja na aderência a leis cegas de alguma religião, ou no empuxo a um gozo que se pretende completo, tendo no uso de drogas ou na criminalidade algumas de suas materializações.
O projeto de lei de redução da maioridade penal parece se situar nessa mesma zona de absolutos. É certo que as políticas públicas repousam sempre no universal, mas podemos pensar em políticas mais ou menos afinadas com a diferença e o singular. Já existe punição para crimes cometidos por adolescentes no Brasil, a qual se organiza sob a forma de medidas socioeducativas. O que motiva a vontade de apagar essa particularidade na lei pode ser uma tentativa de eliminar, da forma mais rápida possível, o que retorna como resto de uma organização social que não pode suportar o que fica de fora.

 

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Idade penal e segregação
Por Isabel do Rêgo B. Duarte, Sandra Landim, Patrícia Paterson, Thereza de Felice e Maricia Ciscato (mais-um) –cartel “Escola e Política”

A psicanálise nos ensina que somos sempre responsáveis por nossos atos e escolhas, não importa a idade. Diante da lei, os jovens respondem de diversas formas até os 18 anos, menos com a entrada no sistema penitenciário. Soa estranho, assim, o coro para que os menores de 18 anos sejam lançados ao sistema penitenciário como forma de responsabilizá-los por seus crimes. Primeiro, porque em nosso atual sistema o jovem já é responsabilizado; segundo, porque a prisão não costuma fazer com que quem nela entre, saia mais responsável.
Pode-se perceber, muitas vezes, certo tom de ódio nas falas que exigem punições mais severas aos jovens, fazendo ressoar algo da “ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação”, anunciada por Lacan na Proposição de 9 de outubro de 1967, texto de base de nosso cartel. A convocação para a redução da idade penal parece estar mais próxima de uma tentativa de que esses jovens sejam eliminados das ruas do que de fazer valer a lei democrática; parece estar mais próxima de uma tentativa de fazer justiça com as próprias mãos do que de fazer valer a lei propriamente dita para esses adolescentes. O problema da segregação se anuncia, a nosso ver, no debate sobre a maioridade penal de forma veemente.
O clamor pela redução da maioridade penal, expresso muitas vezes através do ódio, pode ser lido como uma das respostas frente à angústia, diante de um suposto “Outro gozador”, que gozaria às custas dos “cidadãos de bem”. Mas a angústia se apresenta para todos que se deparam com o retrato patente da falência das instituições patriarcais. Nesse sentido, o imaginário próprio ao humanismo também pode ser lido como uma resposta diante da angústia, pela via oposta à do ódio: a de uma “inclusão a qualquer custo”. O bordão “o lugar do jovem é na escola”, por mais verdadeiro que seja, não parece incidir no real e acaba recaindo, muitas vezes, na busca de um resgate das autoridades já caídas.
Atenta a tais vias de resposta, a psicanálise busca entrar no debate sem ingenuidade, mas com precisão. Trata-se de vencer – em referência ao pronunciamento de Miller por ocasião da 3ª Jornada do Instituto da Criança – discursos que ponham em risco a juventude brasileira num empuxo a torná-los dejetos elimináveis. O desafio é abrirmos uma passagem que vá da tentativa de “eliminação do ineliminável” e da segregação à abertura para um campo de desejo que aponte para possíveis invenções com o que resta.

 

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Analista cartelizante
por Dinah Kleve

Houve um tempo em que meu ofício consistia em moldar pulsões, dentro do enquadre de uma cena, buscando criar o que eu e os meus, de então, chamávamos de “presença”.
Hoje, já não é mais como atriz que me ponho a abordar um texto. Se antes tratava-se de compor uma enunciação para um enunciado dado de antemão, a fim de trazer à vida um personagem (não sem saber que minha própria enunciação também transpareceria nesta operação), o lugar que busco ocupar agora, como analista, requer de mim o reconhecimento da enunciação por parte daquele que me dirige seu enunciado.
Não se trata, em nenhum dos dois casos, de apreender uma técnica prontamente aplicável a qualquer situação, mas antes de um atravessamento da própria singularidade que viabilize o lidar com outras tantas.
Aventurar-se em uma formação em psicanálise é apropriar-se de seu discurso de forma única, experimentando os cruzamentos de ensinos adquiridos com experiências vividas na própria análise, na própria carne. É descobrir outra e outra e outra vez que não existe “O analista”, mas sim o analista que cada um pode vir a ser, ou melhor, como cada um pode vir a ocupar o lugar de analista para um determinado analisante, num dado momento.
Constatação libertadora, por um lado, porque faz cair uma idealização, mas muito angustiante também, por outro, já que não há cartilhas, nem garantias. O que há são os dispositivos próprios da Escola, criados para protegê-la dos perigos, tantos, dos enredamentos imaginários e para fomentar o surgimento de enunciações próprias, como é o caso do Cartel.
A chance de redimensionar conceitos a partir do compartilhamento das próprias vivências, na intimidade desse dispositivo, de elaborar questões sem buscar nas respostas recolhidas uma complementaridade ou exclusão, mas justamente a manutenção de um espaço para o surgimento de várias delas, singulares, tem sido determinante nesse momento de minha formação. Se torno público, hoje, este relato, foi porque tive chance de elaborá-lo ao longo dos ainda poucos, porém já fecundos, encontros do cartel que compõe a atual Diretoria de Cartéis da Seção Rio, composto ainda por Sarita Olga Gelbert, nossa diretora de cartéis, Elena Lerner, Deborah Souza e Cleide Maschietto, tendo Angela Folly Negreiros como mais-um.
Finalizo, portanto, propondo àqueles que porventura tenham se entusiasmado com nossa iniciativa, que nos enviem também os seus relatos de experiências vividas em cartel, apostando, conosco, nos seus efeitos de transmissão.

 

 

Imagem:  Arco-íris líquido, Toshiko Horiuchi Macadam

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