[Editorial – Nº5] “…o inconsciente é Baltimore ao amanhecer”

“… o inconsciente é Baltimore ao amanhecer.” [LACAN, 1983]

 

A psicanálise sempre esteve atenta às cidades. Freud (1969), em um texto que comentava o mal-estar inerente ao homem na civilização, comparou o aparelho psíquico a Roma e sua “profundidade temporal” (LAURENT, 2004). Já Lacan (1983), em uma conferência em Baltimore, fez coincidir o inconsciente com o alvorecer dessa cidade – definição poética que transmitiu uma releitura do inconsciente freudiano: menos profundo, mais próximo dos neons superficiais que sinalizam uma vida articulada (ainda que caótica!), como nas cidades modernas.

Sabemos que essa versão “baltimoriana” não foi a última palavra de Lacan sobre esse tema. Contudo, o deslocamento produzido da “Cidade Eterna” ao “Novo Mundo” atesta o contínuo alerta desse psicanalista às mudanças na civilização e seus efeitos sobre o inconsciente e os laços sociais. Transformações que culminaram na elaboração da noção de falasser, atualizando, mais uma vez, a pergunta: como o singular de um gozo ou de um sintoma pode amarrar (ou não) aos vários, ao coletivo – reunir e eliminar grupos, construir e destruir cidades?

Essa questão Lacan estendeu à sua Escola em ato! Ele inventou, com o trabalho dos pequenos grupos do cartel, a lógica de uma dobradiça que pretende tratar os laços, desenlaces e embaraços, no coração de nossa cidade analítica. “A psicanálise”, comenta Lacan (1983), “é um sintoma social”, ou seja, uma forma peculiar de laço social. Assim, se, por um lado, a psicanálise deflagra um desencontro irremediável; por outro, ao se manter afinada com o tempo presente, ela pode orientar uma ação.

Desta forma, tal como indica Brisset (2015), é responsabilidade dos analistas da EBP, mais do que nunca, demonstrar a lógica dessas intervenções. Isso “implica levar adiante estratégias que engatem a intenção e extensão em psicanálise, numa Ação Dobradiça, em condições de transmitir o que cabe à política lacaniana testemunhar sobre o sintoma de nossa época e como dele se servir, na vida de cada um e na vida das cidades”.

Assim, nesta AÇÃO DOBRADIÇA EM REVISTA, reiteramos esse projeto mas, mudamos a apresentação do nosso conteúdo. O formato atual permite ampliarmos sua circulação: navegar, compartilhar, comentar! Enfim criar novas conexões na cidades, nos espaços concretos e virtuais.

Neste número 5, inauguraremos esse novo circuito com um tema que promete esquentar a crescente discussão sobre gênero, partindo da seguinte pergunta: “A cada um seu sexo?”.

Sabemos que desde seu início, a psicanálise interroga sobre a sexualidade humana. Isso persiste. Contudo, como afirma Lacan (1985), existem “flutuações da moda” na sexualidade e nas teorias sexuais próprias de cada época. A exemplo de Freud, embora a prática analítica não se oriente por esses modismos, um psicanalista deve “levar em conta as profundas mudanças” nesse campo (LACAN, 1985). Uma dessas transformações foi a perturbação dos semblantes que presidiam uma orientação sexuada (como, por exemplo, o binário homem-mulher), posição bem representada pelo movimento Queer.

Assim, na seção AÇÃO LACANIANA ENTRE-VISTA, ao acompanhar as falas dos psicanalistas Sérgio Laia e Cristiane Cunha, vocês perceberão que eles não só situam muito bem a pergunta “A cada um seu sexo?”, como indicam e convidam a um plano de ação, de contribuição lacaniana.

Aliás, a rubrica CONVERSAÇÕES/INTERCÂMBIOS NA CIDADE testemunha como essa ação é profícua! Em São Paulo, a Ação Dobradiça, em parceria com a Blooks e a Editora Subversos, propôs uma conversação animada pela cartunista Laerte, a cineasta Tata Amaral e o psicanalista Marcus André Vieira. Encontro cheio de surpresas que vocês poderão acompanhar através do relato de Lucila M. Darrigo e do vídeo editado por Beth Medeiros.

Last, but not least, em RADAR CARTELIZANTE Fernanda Otoni Brisset esclarece porque o cartel é uma verdadeira “máquina de guerra” lacaniana para orientar a psicanálise nesse seu fundamental debate com a atualidade.

Enfim, sejam bem-vindos à Ação Dobradiça em Revista. Estão todos convidados a ocupar este novo território!

 

Referências:

BRISSET, F. Ação Dobradiça em revista, n. 1, jun. 2015.  Disponível em: http://acaodobradicaemrevista.blogspot.com.br/2016/02/no_9.html?m=1

FREUD, S. O mal-estar na civilização. (1927) In: ___. Edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas. v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

LACAN, J. El discurso de Baltimore. (1966) In: ___. Lacan oral. Buenos Aires: Xavier Bovéda Edições, 1983. (Tradução livre)

LACAN, J. Jornadas de estudo dos cartéis da Escola Freudiana: “sessão de encerramento”. (1976) Letra Freudiana: psicanálise e transmissão, publicação 0, 1983. Circulação interna.

LACAN, J. De Hans-o-fetiche a Leonardo-no-espelho. (1956-1957) In: ____. O seminário, livro 5: As formações do inconsciente. (1957-1958) Rio de Janeiro: Zahar, 1985. p. 425-450. (Coleção Campo Freudiano no Brasil)

LAURENT, É. Cidades analíticas. In: ___. Cidades analíticas. Buenos Aires: Tres Haches, 2004. (Tradução livre)

 

 

Imagem: baseado no vídeo de www.youtube.com/watch?v=wPS3VSjhQno

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