[Ação Lacaniana Entre-vista – Nº4] Marcelo Veras sobre “Loucura e segregação”

Nohemi: Marcelo Veras, em um breve texto publicado no Facebook, intitulado Saúde Mental: por que (porque) lutamos?, você faz uma interessante reflexão sobre a loucura, a segregação e o impossível, a partir de sua experiência ao assumir a direção do Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira. Esse assunto também foi tratado por você em seu livro A loucura entre nós e, segundo as coordenadas atuais, parece necessário ser retomado diante da dificuldade de dar um outro lugar à loucura que não seja o da segregação.

Você faz uma afirmação que me parece muito precisa e instigante: “Descobri naquele dia que seria impossível dissociar minha prática como psicanalista da abominável situação que décadas de práticas hospitalocêntricas tatuaram na vida daqueles pacientes”. Agradeço se puder comentar um pouco mais sobre este ponto. Como a prática como psicanalista pode orientar a prática no hospital abrindo um outro lugar à loucura que não seja a segregação?

Marcelo: Assumi a direção do Hospital Juliano Moreira precisamente na época em que a própria Associação Mundial de Psicanálise repensava o papel do psicanalista no mundo. Alguns textos foram inspiradores para mim, sobretudo os textos “O psicanalista cidadão”, de Éric Laurent, e “Saúde Mental e ordem pública”, de Jacques-Alain Miller. Embora inspiradores, as condições de cidadania para os usuários de Saúde Mental no Brasil eram radicalmente diferentes das condições na França, local onde fiz boa parte de minha formação psiquiátrica. Ser um psicanalista cidadão no Brasil, antes mesmo da promulgação da Lei 10.216, a lei Paulo Delgado, implicava conhecer situações de verdadeira barbárie em diversas instituições psiquiátricas asilares, massificantes, completamente contrárias a tudo que podemos chamar de humano. São situações extremas, como os campos de concentração ou os asilos psiquiátricos, que nos ensinam como um discurso pode produzir a miragem da alteridade radical. Digo miragem porque na verdade o outro que nos habita nunca poderá ser extirpado de nós mesmos. Assistimos, nos dias atuais, a uma ascensão preocupante dos discursos que procuram identificar um outro que possa ser extirpável, eliminável, segregado e afastado. Na Europa temos todos os problemas com a imigração. No Brasil assistimos agora a esse retrocesso na coordenação da Saúde Mental, o que certamente levará ao retorno de práticas orientadas por discursos que negam a função social do sintoma ou, como disse Miller, a utilidade social da escuta. A psicanálise deve estar presente nessas instituições precisamente para evitar que a loucura seja percebida como um processo dessubjetivado, reduzida a objeto de estudo e tratamento. Mais do que isso, sabemos o quanto a loucura já é em si uma tentativa de cura. É preciso escutá-la, o que é muito mais complexo do que simplesmente observá-la.

Nohemi: No título, você coloca a Saúde Mental em termos de luta e causa. Inclusive nomeia os profissionais da saúde mental como profissionais do impossível. Em que sentido é uma luta? O que a orienta?

Marcelo: Chamo de luta porque não se trata de manter uma postura dócil e neutra. Além de dirigir o hospital, fui por certo tempo presidente da comissão técnica de reforma psiquiátrica na Bahia. Não era nada pacífica essa comissão. Uma verdadeira Babel de interesses e discursos, gerava com frequência atritos viscerais nas reuniões. Estavam presentes defensores da reforma psiquiátrica e da desospitalização, defensores dos hospitais psiquiátricos, representantes dos familiares, a CUT, a CGT, imaginem o que era presidir essa comissão. Chamo de profissionais do impossível pois aprendi com a psicanálise que a segregação é de estrutura: de um modo ou de outro ela sempre voltará na cultura. Estamos condenados a não baixar guarda, pois em algum momento a inquietante estranheza sempre aparece na cultura, e quando isso ocorre a sedução dos discursos totalitários e de segregação é muito grande. Ninguém quer perceber o mal em si mesmo; é sempre mais confortável localizá-lo no outro.

A Loucura entre nós - Uma experiência Lacaniana no país da Saúde Mental. Marcelo Veras
A Loucura entre nós – Uma experiência Lacaniana no país da Saúde Mental. Marcelo Veras

* Marcelo Veras é psicanalista da AME, EBP/BA.

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