[Conversações/ Intercâmbio com a cidade – Nº9] Vídeo “ A tentação do púbere no cinema” por Marcela Antelo e Luiz Felipe Monteiro

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“A tentação púbere do cinema”
Núcleo de Psicanálise e Audiovisual (IPB-Bahia)

O ensejo do vídeo foi conjugar cinema e psicanálise sem cair na armadilha da psicanálise aplicada ao cinema. O que o cinema ensina à psicanálise, em especial quando falamos sobre adolescência? O argumento central está em localizar nas produções audiovisuais não exatamente a representação, mas precisamente aquilo que, através dos semblantes, pode-se capturar de real sobre a puberdade/adolescência/juventude. Trata-se de um precipitado de um ano de estudos e experiências com material audiovisual motivado pelo XXI Encontro Brasileiro do Campo freudiano e suas indicações de leitura.

O conteúdo de uma entrevista com Fritz Lang e Jean-Luc Godard traduz esse acento. Ali, o senhor dinossauro do cinema diz com todas as letras: o cinema é uma arte eminentemente jovem, está interessada no que há de novo, aquilo que desponta pela primeira vez. Godard se impressiona, os seus mestres do cinema com agudo senso do despertar.

Desse ponto de partida chega-se ao jogo com o véu e o seu destino contemporâneo, o véu arrancado como verdadeiro contraponto. Eis o argumento: a produção cinematográfica atual sobre a adolescência (por sinal, crescente) traduz o impasse púbere quanto à pulsão de modo a não se valer do artifício do véu. Para demonstrá-lo, são exibidos em sequência trechos dos filmes Houve uma vez um verão (Summer of ’42, Robert Mulligan, 1971) e Lírios d’água (Naissance des pieuvres, Céline Sciamma, 2007). No primeiro, vemos a clássica dança do jovem rapaz e a mulher ao som de Michel Legrand. O jogo de luz e sombra alude ao encontro sexual, mas também o vela, remetendo simultaneamente ao desencontro estrutural da não-relação. Em Lírios d’água, vemos uma cena de desvirginamento. Com a ajuda da mão de sua amiga serviçal, a personagem de 14 anos quer livrar-se da virgindade antes do sexo com um jovem mais experiente. Aqui, a perda da virgindade é um aspecto operativo. O véu que resta é conferido pela colcha da cama; não há um jogo de cena para esconder o que não pode ser visto.

Se a sequência parece anunciar uma Wasteland, não é por esse caminho que seguimos. Se o véu é outro e mais cru, o desafio de encontrar uma ética para conformar a tensão entre desejo, amor e gozo nunca deixa de insistir. De todo modo, seja nos filmes ou na vida, esse arranjo está para a adolescência sempre em um estado nascente. Como se buscou transmitir, se o cinema padece de uma tentação púbere é porque deseja capturar o espírito desse happening.

(A senha é “pubere”)

Marcela Antelo e Luiz Felipe Monteiro

 

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Imagem: Fhero PDF Crew