[Conversações/ Intercâmbio com a cidade – Nº7] Texto de Marcela Antelo: “A notícia do próprio grito”

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Crianças e jovens, durante o período da ditadura no Brasil, mergulhados num silêncio aturdido, experimentaram a brutalidade opaca da vida como um GOLPE NA CARNE de seus corpos face a prisões, tortura, desaparecimento e morte de seus pais. Como ler essa experiência traumática? “Acaso não sabemos que, nos confins onde a fala se demite, começa o âmbito da violência?”, pergunta Lacan em 1954.

A Diretoria de Cartéis e Intercâmbio da EBP-SP e a Livraria Blooks, em parceria com o Projeto Nacional de Ação Lacaniana da EBP, convidaram dois filhos de presos políticos, Elisa Ventura e Ivan Seixas, para conversarem sobre esse assunto que concerne a todos nós.

A conversa foi mediada pela psicanalista Marcela Antelo, atual Presidente da EBP, que vivia na Argentina durante a ditadura daquele país. Antes mesmo de a conversação acontecer, a partir das ressonâncias do convite em seu corpo, Marcela colocou-se a escrever. Essa escrita, inédita, vocês poderão lê-la aqui.

Boa leitura!

Texto preparatório para a Conversação O Golpe na carne, Rio de Janeiro, 2/6/2016 :
A notícia do próprio grito
Por Marcela Antelo 
[1]

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Nada é mais corporal que o exercício do poder. A história do castigo dos corpos foi escrita por Michel Foucault. Foi Jacques Lacan quem deu conta da estrutura do fantasma, da fantasia de cada um frente ao Outro do poder. Ele disse em 1958: “O chicote é o pivot, quase o modelo da relação com o desejo do Outro” [2]. Há um ‘todos submetidos ao chicote’, fantasmaticamente – a lei do Schlag tomada dos campos de extermínio. Marcus André Vieira o leu assim: “o chicote é o elemento significante imaginarizado que estabelece a relação entre quem bate e quem apanha” [3].

O que acontece quando o fantasma se realiza? E quando o chicote aparece no real e os corpos são efetivamente castigados? Ou ainda quando, de fato, o indivíduo está assujeitado ao Outro que brande o instrumento?

O castigo se escreve no corpo. O exemplo maior de inscrição constitui a máquina imaginada por Kafka no relato A colônia penitenciária, que escreve a cifra do destino mortal na cabeça de um condenado em uma fantasia da cidade do México, cifra da qual o portador desconhece o texto e o sentido. Citada por Foucault em Vigiar e punir e por Lacan em A subversão do sujeito, temos nessa narrativa um corpo como monumento de escrita.

Como a ditadura se escreve no corpo dos seus filhos? Somente outorgando a palavra a cada um. Somente praticando uma operação de leitura do impossível de ser lido é que podemos figurar o que se silencia, o que faz gritar, o que dói.

Dividida, nesses dias prévios ao nosso encontro, perguntava-me o que poderíamos esperar da palavra quando a memória toma a forma de uma ferida. Sigmund Freud se interessou pela dor muito cedo na sua obra, assim como pelas formas em que a memória se inscreve ou fracassa em se inscrever. No seu Projeto de 1895 escreveu: “Numa situação em que a dor nos impediria de obter bons signos da qualidade do objeto, a notícia do próprio grito nos serve para caracterizá-lo (…) desde aqui só nos falta um curto passo para chegar à invenção da linguagem”. O grito de dor, invocante, e o corpo que sofre inventam a linguagem. A nobreza obriga então a dizer sobre a experiência, a dizer a experiência, à experiência de dizer. As consequências da palavra no sujeito cifram seu inconsciente, que é o opaco em cada um. O próprio grito, que pode ser mudo, como ensinou Lacan, graças a Munch, é absolutamente singular; e um fato, que para um só faz cócegas, para outro pode ser o trauma maior da existência. Lacan fala do hieróglifo do chicote. Trata-se então de leitura de experiência e sua edição.

Fiquei me perguntando como, numa época onde a tirania da transparência joga luz sobre as experiências mais recônditas, poderíamos preservar a opacidade própria de qualquer experiência infernal. Pensei que por se tratar do golpe na carne, da prática do ódio ao corpo do outro, o ódio em estado puro – que, segundo a fórmula de Lacan, visa ao próprio ser do outro -, a opacidade ficaria garantida. Um ano antes do genocídio de jovens argentinos pela ditadura militar, a peçonha da tortura como situação extrema já tinha entrado no sangue através do cinema. O filme de Liliana Cavani, O porteiro da noite, resultou inquietantemente familiar e largamente abominável pela ousadia de nos dar a ver a mistura do ódio e o desejo entre uma prisioneira de campo de concentração e seu carrasco. Como transmitir o golpe na carne e a derrubada subjetiva não somente do golpeado senão do golpeador. O gozo do carrasco, do torturador. Igual estranheza causou a escrita de Gunther Anders com suas Cartas ao piloto de Hiroshima [4]único dos pilotos a se negar a ser considerado um herói.

A tecnologia repressiva argentina, de que fui contemporânea, foi uma montagem sofisticada que se iniciou antes de seu reinado formal, que se estendeu de 1976 até 1983. No massivo e no microfísico, a montagem passava pela aplicação da violência extrema nos corpos acusados de desobediência civil. A cumplicidade da sociedade, sua indiferença, as delações, os negociados e as corrupções começam a aparecer no cinema mais recente, a dizer na consciência dos seus implicados. O grau de responsabilidade aumenta à medida em que nos distanciamos do homem que usa o instrumento fatal (Disse Hannah Arendt sobre Eichmann).

Quando estiverem perdidos, recorram aos poetas – dizia Freud. Na Argentina, o tratamento do real pela ficção serviu-se do dispositivo audiovisual para, ainda em tempos de censura, pôr em cena o drama que se vivia. Os filmes Tiempo de Revancha, de Adolfo Aristarian (1981), e La noche de los lápices, de Héctor Olivera (1986), conseguiram levar à cena a progressiva deterioração dos corpos torturados, magros, sujos e marcados. No limite do representável, servindo-se da metáfora e da metonímia como artifícios da opacidade inconsciente. A elipse e o fora de campo com burlas à transparência foram os recursos do filme Garage Olimpo (Marco Bechis, 1999), que encarou o trauma de frente mais uma vez. O travelling do avião desde o que se lançavam ao mar o corpo dos prisioneiros não revela seu segredo e sim mostra o que entra no enquadre. A música do filme, a mesma que calava os gritos dos torturados, tocada sem seu contexto sinistro, inquieta. Segundo Schwarzböck, “lo que en la Argentina estaba sucediendo en 1977 lo juzgamos hoy más por lo que entonces sucedía adentro de un campo de concentración que por todo lo que sucedía afuera de él” [5]. Outros caminhos tomaram os filmes Un muro de silencio (Lita Stantic, 1993), Kamchatka (Marcelo Piñeyro, 2002), Cautiva (Gastón Biraben, 2003), Hermanas (Julia Solomonoff, 2004),

Já o diretor Adrián Caetano, de Crónica de una fuga (Israel, 2006), parece indicar uma orientação que pode nos interessar: “Se continuamos a fazer filmes onde somente se relata o conflito principal – aqui estão os maus, os torturadores; e aqui estão os bons, as vítimas –, seria um exercício inútil, uma utilização pouco proveitosa de um meio tão forte como o cinema. Seria uma memória inercial, não ativa; não recuperadora, nem geradora de debate” [6].

O conceito de letra teorizado por Lacan, solidário de uma narrativa não linear que se ajusta à experiência que atravessamos quando a vida transborda a vida, como diz Antoni Vicens, pode servir para situar os limites da leitura dos golpes na carne. “Para apreciar esta [a letra] há que se entregar ao texto e deixar que a letra nos possua. Chamo letra a qualquer unidade imaginária que se aproxima do real” [7].

Se tomarmos como verdade o enunciado de Paul Valéry, de que o homem é um ser enjaulado do lado de fora da sua caixa, que se agita fora de si, uma criatura êxtima ao que a determina, só podemos apostar em relatos cheios de vazios por onde o real de cada um possa aparecer.

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[1] Psicanalista, AME
[2] LACAN, Jacques. O Seminário, livro V: As formações do inconsciente. [1957-1958] Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999. p. 252.
[3] VIEIRA, Marcus André. A clínica da significação ou a atualidade do Seminário V. Disponível em: <http://ebp.org.br/wp-content/uploads/2012/08/Marcus_Andre_Vieira_A_atualidade_do_Semin%C2%A0rio_5_de_Jacques_Lacan1.pdf>.
[4] ANDERS, Gunther. El piloto de Hiroshima. Más allá de los límites de la concienciaBuenos Aires: Paidós, 2010. Disponível em: <http://www.elmundo.es/elmundo/2010/06/24/cultura/1277401673.html>.[5] SCHWARZBÖCK, Silvia. Estudio crítico sobre Crónica de una fuga. Buenos Aires: Picnic Editorial, 2007.[6] KAIRUZ, Mariano. Adrián Caetano revisita los ’70. Página 12, 2006. Disponível em: <http://www.pagina12.com.ar/diario/suplementos/radar/9-2940-2006-04-16.html>. Acesso em: 16 maio 2016.[7] VICENS, Antoni. Discusión “Lo parece o todo el mundo está loco” en “Las Retóricas delirantes y las cosas”. L’Atalante, Revista de Estudios Cinematrográficos, n. 15, p. 88, enero-junio 2013

Imagens:
1- Imagem: Maria Objetiva/Barnabé di Kartola
2- Marcela Antelo, psicanalista, EBP/BA