[Conversações/ Intercâmbio com a cidade – Nº6] Uma nota de Christiane Alberti sobre “Os Estados de urgência”, notícias sobre OCA e o PIPA (e rabiola)

Nessa rubrica contamos com três trabalhos que testemunham a presença da Ação Lacaniana na cidade.

O primeiro trata de uma intervenção de Christiane Alberti. A presidente da ECF/AMP participou da Conversação da Escola Una com os demais presidentes das sete escolas do Campo Freudiano. Eles se debruçaram sobre o tema da Ação Lacaniana durante a Assembleia que teve lugar no Rio de Janeiro, por ocasião do X Congresso da AMP. Seu texto “Os estados de urgência” destaca a responsabilidade do analista face às questões de sua época. “Deve-se intervir no debate público? Como?” Como diz Lacan, “não basta a evidência de um dever para que ele seja cumprido” (Outros escritos, 2003, p. 246). “As posições de Freud e de Lacan nos tempos de guerra dão motivos para pensar.” (Christiane Alberti). Nesse texto curto e direto, Alberti destaca o que cabe a um analista face às urgências de seu tempo.

O segundo trabalho registra a experiência em Belo Horizonte de um grupo do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Observatório da Criança e do Adolescente (OCA), que escolheu trabalhar a partir do dispositivo do cartel. Essa experiência se desdobrou em uma contribuição para a cidade: o Primeiro Colóquio Internacional do OCA – Mais além do gênero: o corpo adolescente e seus sintomas. As integrantes desse cartel – Ana Lydia Santiago (mais um), Cristiane de Freitas Cunha, Cristina Vidigal, Libéria Neves e Nádia Laguárdia de Lima – esclarecem, em um breve texto, um pouco sobre o que é o OCA e sua relação com a psicanálise de orientação lacaniana na prática da extensão e da pesquisa/intervenção. Para que tenhamos uma ideia da riqueza desse trabalho, a Ação Dobradiça apresenta aqui uma vinheta do Colóquio, que é apenas uma das ações do OCA na cidade!

Em Vitória, concluímos com as notícias de Bartyra Ribeiro de Castro sobre a vivacidade do Programa de Investigação Psicanalítica do Autismo – PIPA (e rabiola) – e sua imiscuição naquela cidade.

Três desdobramentos da Ação Lacaniana que vale a pena serem conhecidos!

 

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Os Estados de urgência
Por Christiane Alberti
Tradução: Fabiana Campos Baptista

Os fatos

Por três vezes, o trabalho da Escola da Causa Freudiana se encontrou bruscamente ligado aos atentados. Na primeira vez, em janeiro de 2015, quando a Jornada Question d’Ėcole se aproximava, aconteceram os ataques ao Charlie Hebdo, em Montrouge e no Hyper-Casher. Em seguida, vieram as matanças do último 13 de novembro em diversos locais de Paris, que nos levaram a cancelar a 45a Jornada da ECF. Assim como os atentados em Bruxelas, de 22 de março, eles foram reivindicados pela organização jihadista “Estado Islâmico”.

Os atos

Depois dos atentados de janeiro de 2015, um tempo para compreender foi propício para seguirmos adiante e mantermos a Jornada Question d’Ėcole. A temporalidade foi totalmente outra em 13 de novembro, precipitação do momento de concluir: a decisão de cancelar nossa Jornada foi tomada em algumas horas. Silêncio e reserva se impuseram. Silêncio de pavor, silêncio obrigado, pois o terror faz calar. Reserva e sobriedade estilística já que nem a interpretação precipitada nem os discursos científicos eram convenientes.

Estados de urgência

Primeiramente, a Escola, uma associação reconhecida como sendo de utilidade pública, não questiona o estado legal na França. Ela o respeita, tomando, especialmente, as medidas de segurança que se impõem, da mesma forma que ela se juntou ao luto nacional na França e na Bélgica. O estado de direito faz parte das condições de exercício da psicanálise e, neste sentido, a Escola se inscreveu, decididamente, deste lado.

Os estados de urgência são os mesmos que encontramos na clínica analítica. Angústias importantes, manifestações do inconsciente, pesadelos, fobias nas crianças irromperam nas análises, assinalando a marca desses acontecimentos. Freud notava que a guerra faz a neurose passar para segundo plano. Isto não é o que constatamos, sem dúvida porque não se trata de um estado de guerra, como aquele que conhecemos, na qual a manifestação de um ideal recobria os sintomas neuróticos. Neste caso, nas demandas de análise, o efeito foi o inverso.

A política levada até aqui

A Escola segue com sua ação, levando em conta o estado de urgência: o estreito trabalho da Escola em torno da psicanálise em intenção e da psicanálise aplicada; a preparação do Congresso da AMP; as publicações em série; os ACF e o largo endereçamento ao público… Em resumo, ela se empenha em manter as condições de formação dos psicanalistas, pois é aqui que ela tem a maior margem de ação e é aqui que ela mobiliza através de todos os seus meios de ação. Por um lado, o estado de urgência congela e, por outro, acentua essa margem de liberdade. É esse modo de resistência que me parece ser o mais apropriado ao psicanalista, mesmo que a imageria quarante-huitarde[1] das barricadas seduza sempre.

As questões que se colocam hoje

Esses acontecimentos nos levam a tornar o momento presente compreensível, pois sua extensão e seus contornos são complexos. Em todo caso, surgem três coisas:

  1. Que estamos em um tempo de precariedade em se tratando das condições do laço social que tornam possível a prática da psicanálise, e que se trata de nos mantermos vigilantes ou, neste caso, nos tornarmos vigilantes de uma forma diferente. A situação presente se caracteriza por uma incerteza elevada. Estamos em guerra ou na guerra? O Estado Islâmico está em guerra. Não estamos em um franco estado de guerra e é preciso, então, qualificá-lo.
  2. O debate em jogo para a psicanálise é ainda mais complicado. Deve-se intervir no debate público? Como? Como diz Lacan, “não basta a evidência de um dever para que ele seja cumprido” (Outros escritos, p. 246). As posições de Freud e de Lacan nos tempos de guerra dão motivos para pensar. Não intervimos es qualité, como Escola, e desencorajamos as atividades que pretendiam abordar a questão do islamismo de frente e não por uma borda a partir da questão propriamente psicanalítica. Em contrapartida, recebemos de todas as partes o testemunho de que cada vez que os psicanalistas se dão a ler (principalmente no Lacan Cotidiano), a ver, a escutar em suas intervenções os elementos de interpretação da atualidade a partir dos resultados de sua prática, eles contribuem dando as ferramentas de leitura aos que procuram se orientar. Recebi o testemunho de colegas que, desde os atentados, dizem ter se aproximado da Escola porque eles encontraram nela mais material para se orientar do que nas mídias, que são, na maioria das vezes, pobres. Neste ponto de vista, as últimas Jornadas Pipol foram um exemplo pela abertura na cidade, pelo diálogo instruído com os intelectuais, pela conversação política com os cidadãos engajados em uma causa que elas iniciaram para nos permitir tomar a medida do fenômeno com o qual temos relação.
  3. Não estamos em guerra, mas alguma coisa mudou. O que nos toca, de imediato? Uma imposição que está presente e que se exerce nos corpos falantes e as manifestações públicas que são necessárias ao exercício da psicanálise. Ela faz aparecer, com vigor, este bem comum: reunir-se, deslocar-se, trocar livremente, que nos deixem habitar plenamente os nossos lugares, os lugares da psicanálise, com a toda soberania, e o lugar que se escolhe na língua, que nos deixem isso! A exigência pode parecer mínima, mas não é menor que o próprio espaço do político na psicanálise.

* Christiane Alberti é Psicanalista – membro da ECF/AMP

[1] Quarante-huitard refere-se ao nome dado aos revolucionários de 1848. (N. do T.)

 

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Primeiro Colóquio Internacional do OCA “Mais além do gênero: o corpo adolescente e seus sintomas”

Por Ana Lydia Santiago, Cristiane de Freitas Cunha,

Cristina Vidigal, Libéria Neves e Nádia Laguárdia de Lima

 

OCA? É o Observatório da Criança e do Adolescente, que reúne núcleos de pesquisa de Programas de Pós-Graduação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Seu interesse é compartilhar as investigações sobre os sintomas e inventos inéditos das crianças e dos jovens no tratamento do real. Os integrantes do OCA – Ana Lydia Santiago, Cristiane de Freitas Cunha, Cristina Vidigal, Libéria Neves e Nádia Laguárdia de Lima – constituíram um Cartel, inscrito na Escola Brasileira de Psicanálise (EBP-MG), para o estudo desse tema, a produção de artigos e a organização de eventos, o que tem sido um desdobramento desse encontro!

Os núcleos se pautam na psicanálise e reivindicam a orientação lacaniana na prática da extensão e da pesquisa/intervenção, buscando não apenas constatar um problema, mas modificá-lo, de forma a favorecer a inclusão e o laço social para os sujeitos implicados nas investigações. Assim, os núcleos contemplam as dimensões da pesquisa e da extensão, mas também se dedicam à vertente do ensino, a partir de entrevistas e discussão de casos coletivizados, construções de casos e sua publicação, visando à formação de professores e de futuros profissionais das áreas da saúde, psicologia e educação.

O vínculo de cada um dos coordenadores de núcleos de pesquisa às unidades da UFMG diz do campo específico de atuação deles, no conjunto da interdisciplinaridade:

– O Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psicanálise e Educação (NIPSE) desenvolve pesquisas em escolas públicas e privadas, espaços educativos e de sócio-educação por meio de intervenções junto a “alunos-problema” – crianças e jovens que não aprendem a ler e escrever, com comportamentos indesejados, que são caracterizados como erotizados ou violentos.

– A Janela da Escuta desenvolve pesquisa no Ambulatório da Faculdade de Medicina, onde recebe adolescentes “completamente descontrolados”, que não aderem ao tratamento, fracassam na escola, se recusam a comer, vomitam, se cortam e se drogam.

Educação, Subjetividade e Cultura Digital realiza conversação com adolescentes e investiga a sua relação com as redes sociais, visando esclarecer o estatuto do saber no contexto das novas tecnologias, assim como novos sintomas atrelados a esta via.

– O Núcleo de Investigação em Anorexia e Bulimia (NIAB), do Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina, reúnes médicos, estudantes de medicina, psicólogos e psicanalistas na discussão de casos que chegam encaminhados de vários serviços e desafiam todos os saberes.

*Ana Lydia Santiago é Profa do PPg em Educação/FaE/UFMG, coord. Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa em Psicanálise e Educação (NIPSE) AME da AMP e EBP

*Cristiane de Freitas Cunha – Médica, psicanalista (EBP/AMP)
Professora Associada da Faculdade de Medicina da UFMG, Membro do OCA

*Cristina Vidigal, Psicanalista, supervisora clínica – NIAB e Serviço de Psicologia do HC, membro EBP e AMP

*Libéria Neves- Psicóloga, Pesquisadora no campo da psicanálise aplicada à educação. Professora na faculdade de educação da UFMG. Membro do OCA.

*Nádia Laguárdia de Lima- Psicologa, Professora do Departamento e do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFMG, membro do OCA e coord. do grupo de pesquisa: Além da Tela: Psicanalise e Cultura Digital.

 

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Notícias de Vitória: Pipa (e rabiola)
Por Bartyra Ribeiro de Castro

O ano de 2016 começou com bastante trabalho para o Programa de Investigação Psicanalítica do Autismo (PIPA) (e rabiola), mantido pela OSCIP Núcleo de Referência e parceira da EBP, em funcionamento desde novembro de 2013.

O PIPA (e rabiola) abarca seminários de formação da equipe, assembleias clínicas com êxtimo (Gustavo Stiglitz – EOL), eventos públicos tais como Seminários Internacionais e Regionais – “Autismo e Inclusão”; além dos Projetos “Autismo no Cinema” e “Quem é meu filho?” e da Orientação Clínica em Serviços de atendimentos a crianças e adolescentes autistas.

A Prefeitura Municipal de Vila Velha (ES) reiterou o interesse em ampliar o Projeto “Autismo no Cinema” para todas as Escolas da Rede Municipal, buscando abranger ainda mais professores e pedagogos que o ano passado, na primeira versão do Projeto. Em virtude da repercussão dos resultados obtidos naquele município, a Prefeitura Municipal de Vitória (ES) também fechou a parceria com o “Autismo no Cinema” para que fossem exibidos os filmes Temple Grandin, Outras vozes e A céu aberto aos professores e pedagogos de sua rede.

“Autismo e Inclusão” – palestras com debates, será realizado em maio na Barra da Tijuca (RJ) e, em junho, em Vitória (ES). Essas palestras visam informar professores e pedagogos sobre o autismo e buscar, junto a eles, soluções para os problemas mais prementes no tocante à inclusão no meio escolar.

No dia 5 de maio, o PIPA (e rabiola) assumiu a Orientação Clínica dos atendimentos a crianças autistas no ambulatório do Hospital do Amparo (RJ). Em abril, mais uma frente de investigação do PIPA (e rabiola) foi aberta, sob a responsabilidade de mais um membro da EBP – Campina Grande (PB).

PIPA (e rabiola): Vitória – Bartyra Ribeiro de Castro / Teresóplis – Rachel Amin / Rio de Janeiro – Marcela Decourt / Campina Grande – Cristina Maia.

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* Bartyra Ribeiro de Castro é Psicanalista -membro EBP/AMP. Contato de Bartyra: [email protected]

 

 

 

 

Imagens:

1- Intervenção de lego no muro. Autor desconhecido. Fonte: br.pinterest.com/pin/363032419941876697/

2- “uma flor é colocada em um buraco de bala na janela do restaurant Le Carillon (foto: Christopher Furlong/Geetyimages).

Fonte:epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2015/11/franca-identifica-os-129-mortos-nos-atentados-de-paris.html