[Conversações/ Intercâmbio com a cidade – Nº10] O que se escreve e o que não se escreve no grafite? Sérgio de Mattos

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O que se escreve e o que não se escreve no grafite?
Por Sérgio de Mattos [Diretor de Carteis e Intercâmbio da EBP-MG]

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A ação Lacaniana do primeiro semestre de 2017, na EBP-MG, busca se lançar na cidade tomando o grafite e o pixo como pontos de partida. Em torno do tema propomos uma roda de conversa entre analistas, grafiteiros e pichadores com o intuito de localizar o que se escreve ou não se escreve no encontro com os muros e as paredes da cidade. O que é um muro? O que ali se escreve? O que ali é impossível de se escrever? O que é hoje uma cidade?

Apostamos nesta atividade aprender com o inédito que pode surgir quando estamos atentos em ouvir e ler o inconsciente, suas conexões, extensões e seus novos protagonistas.

Um axioma lacaniano pode nos servir como um vetor, – um arqueiro procura o melhor lugar desde onde atirar sua flecha – é a proposição de que “o inconsciente é a política”.

A analise freudiana do Witz justifica articular o sujeito do inconsciente a um Outro e qualificar o inconsciente como transindividual[1]. É então possível passar de “o inconsciente é transindividual para “o inconsciente é a política. Trata-se de uma amplificação, do transporte do inconsciente, para fora da esfera solipsista, para coloca-lo na cidade.

A ação Lacaniana de acordo com a imagem proposta por Antônio Benetti, é uma flecha atirada nas bolhas da segregação. Entretanto pensamos ser preciso acrescentar: e seu retorno.

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Poderíamos ainda na concepção da Ação Lacaniana, inspirados em J.A-Miller nas suas “ Intuições Milanesas, nos propor à leitura e escritura de uma espécie de psicopatologia da vida política, para em cada caso propor nossa ação?

Nossa aposta é de que o analista possa estar na cidade. Mas talvez não haja mais “a Cidade”, aquela partir da qual a política se dedicava. Miller, entende que “a Cidade é uma nostalgia, é também imaginária no sentido que hoje, procuramos encontra-la na televisão e acrescentaríamos, nas redes sociais, como lugares onde supostamente se elaboram e se difundem um consenso.

Contudo a época do mercado nada tem a ver com a ágora antiga, onde se visava consenso e/ pacificação. Hoje verificamos paradoxalmente que a pacificação do espaço publico, é acompanhada de uma dor privada, intima subjetiva, e que ao mesmo tempo em que se celebram as virtudes do pluralismo, da tolerância e do relativismo, se experimenta uma verdade que só se oferece no sofrimento do um sozinho.

Seria então segundo Miller, preciso ousar, e mais do que falar do analista na cidade, colocar a questão dos analistas na globalização, conceito hoje mais operativo que o de Cidade.

A Globalização fala do que entrevemos de um espaço social em que nada mais está em seu antigo lugar, trata-se a rigor da subtração da própria noção de lugar. Será a falta de lugar o real da globalização? O que não aí não se escreve?

O que se passa na era da globalização é que só há o gozo. Neste nível foi aberto o espaço da invenção sexual. Da criação fora do norma, e da inclusão do gozo nos direitos humanos.

Hoje tudo é uma questão de percurso, arranjos e regimes de gozo.

Não vivemos mais uma época disciplinar, o que em parte pode explicar os fracassos advindos das medidas repressoras, disciplinares, impositivas, frente a acontecimentos supostamente marginais.

Hoje o centro está em todos os lugares, o marginal é o central, estamos ai em cheio na noção de extimidade. E é necessário verificar ao que respondem essas novidades, e formular este modo de resposta.

O domínio do mestre contemporâneo ( ver nas Intuições Milanesas) – agenciado pela ciência, formula J-A Miller, age por redes flexíveis, moduláveis e flutuantes por onde circula uma dominação que não é mais exterior. Negri a isto denomina “alienação autônoma.

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Aplico agora a este novo horizonte de nossa ação, uma proposição surgida no recente XII Congresso de membros, relativa a nossa relação com o discurso do mestre. É a seguinte: será preciso colocar nesta ação uma dialética entre momentos de vigília, escuta e leitura e momentos de ação. A vigília condiciona a ação. E frente ao discurso do mestre é ainda necessário que o psicanalista ai se submeta abertamente – nos diz Lacan – ou seja, abertamente se submete para subverte-lo. Vejamos a lição de Loyola, admirado por Lacan. Quando o mestre aperta muito, devemos seduzir, persuadir para que ele não se irrite muito conosco. É preciso preservar o semblante do mestre para que ele não se irrite demasiado.

De volta aos grafites e pixos, conhecemos o prazer de escrever. Esta satisfação a conhecemos exemplarmente na caligrafia de vários povos. Os ideogramas são por exemplo o lugar de uma signo, mas também de uma satisfação estética produzida pelo traço e o modo de conduzir o pincel de nanquim na folha branca do vazio mediador.

Os pixos, taggs, grafites tem muito em comum com a caligrafia, há um prazer visível nesta atividade, que deveríamos localizar melhor.

A compatibilidade dos grafites e pixos com um discurso subversivo, mais do que transgressivo ou revolucionário, frente ao discurso do mestre, hoje com sua cara contemporânea, torna-o parceiro da Psicanálise, e mais ainda, porque ambos a seu modo parecem dedicados à subversão e a escritura. A escrever o que não se escreve.

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Referéncias:
[1] Jacques Alain Miller. Intuições Milanesas. Opção Lacaniana On-line nova série.
Ano 2. Número 5. Junho 2011.
Todo o desenvolvimento deste artigo seque as ideias de Miller no seu texto.

 

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Imagens:
1. Oficina de Jean Baptiste, foto Nidin Sanches, obra Coletivo Gambiologia
2, 3 e 4. Sergio Matos