AD 4/ Anteriores 2011–2013

A dimensão política do cartel
Ricardo Seldes

Ricardo Seldes, AME, membro da EOL e da AMP, participou como convidado internacional da Jornada de Cartéis da EBP-Minas Gerais, em 26 de agosto de 2011. Dedicou-se ao tema do dispositivo do cartel na Escola em sua fala de abertura, debateu os trabalhos apresentados, tendo, ainda, realizado no dia anterior uma conferência intitulada “Não nos cuidem tanto”. Suas colocações instigaram a Comissão dos Cartéis da EBP a propor-lhe uma conversa, cujas idéias centrais reproduzimos a seguir. Agradecemos Ricardo Seldes pelo entusiasmo com que acatou nosso convite e nossas indagações, como também pela revisão do texto editado pela Comissão.

Cartel: o coletivo do um por um O interessante do cartel é sustentar-se em um trabalho coletivo, porém de um por um.

Ou seja, possui a característica essencial de ser o órgão de trabalho da Escola onde se considera o um por um – membros ou não da Escola – junto ao coletivo.

Então, há um coletivo. Por isto, pareceu-me muito importante o nome dado à última mesa desta Jornada, “A psicanálise e o coletivo”, cujas questões, aparentemente tão diferentes, diziam respeito, todas elas, ao que é o coletivo dentro do cartel. O cartel já é um coletivo; e quando seu produto é apresentado à comunidade, ele se insere em outro coletivo. Poderíamos pensar em níveis do coletivo, pois o que foi apresentado à comunidade da Seção Minas poderia ser apresentado em jornadas nacionais de cartéis.

Na EOL, existem jornadas nacionais de cartéis e a cada ano acontecem em uma cidade: e isto é fundamental. Uma vez é em Córdoba, outra, em Santa Fé, outra, em Rosário, outra em Buenos Aires, e com isto o coletivo vai se ampliando.

Parece-me importante localizar ainda essa questão do coletivo e do privado, ou seja, do público e do privado, uma vez que o cartel implica 4, 5, 6 pessoas que se reúnem. Maria Wilma1 mostrou claramente o caráter privado do cartel ao contar a freqüência com que se encontravam, o dia, enfim, quase se podia vê-los em reunião. Isto diz respeito à privacidade do cartel: elege seus temas, elege seus percursos.

Os tempos lógicos no cartel
No cartel há uma estrutura temporal. Poderíamos seguir as questões do tempo lógico de Lacan: o instante de ver, o tempo para compreender e o momento de concluir. Em nossas Escolas isto está delimitado, não se pode passar de certo tempo para as pessoas se separarem, se descolarem, como disse Lacan já nos anos 80, em D´Écolage. O final não é uma contingência. A Escola diz que depois de dois ou três anos o cartel tem que se dissolver e espera a contribuição de cada um. Isto não é uma contingência; está mais relacionado ao que podemos chamar o controle da Escola. As pessoas o fazem se o desejam, não há uma obrigação absoluta de se apresentar, mas há um chamado da Escola para mostrar o seu produto.

Momento de conhecer
Creio que há uma questão na Escola, na EOL ao menos. Não falo especificamente da EBP, embora tenha escutado que nela também se passa algo parecido. Trata-se de uma exigência: “Todo mundo em cartel” ou “Os cartéis não interessam a ninguém”. É algo extremado. O cartel continua sendo para mim um lugar, Lacan o diz, um lugar de entrada na Escola. Equivale a dizer: um lugar onde se conhecem as produções, as pessoas, o que pensam da psicanálise – não no sentido irônico como se fosse “um lugar para conhecer gente”. É um lugar onde também a Escola conhece os que não são da Escola.

Momento de concluir
A conclusão não se faz mais no terreno da privacidade, mas com outros. Com os outros, pois a Escola inclui também quem não é membro de Escola. Assim, evoquei a relação com os tempos lógicos de Lacan porque é no final que sabemos que cor cada um tinha nas costas. Mas somente no final do trabalho do cartel, não no início; no início, tem-se uma ideia do que se quer trabalhar, como se quer trabalhar, somente no final, ao saírem todos juntos, sabe-se a cor que se tinha. Ou seja, ali também se conclui sobre o que não se sabe.

O cartel na formação do analista
Acerca da diferença, colocada por Lacan na fundação da Escola, em relação à IPA. Por meio dos cartéis e dos dispositivos que possam ser montados em torno da Escola, tem-se a possibilidade de por em jogo o controle da formação. Lacan dirá que todo empreendimento pessoal reinstalará seu autor nas condições de crítica e controle, condições sob as quais todo trabalho contínuo estará submetido na Escola. Atenção, a respeito do cartel Lacan coloca: crítica e controle.

Era isso o que queria dizer: quando Lacan funda a Escola opõe-se ao controle rígido estandardizado da IPA e da “psicologia do ego” que imperava na instituição neste momento. Então, Lacan propõe algo mais livre; por exemplo, a possibilidade de se eleger o analista. Na IPA, a análise didática só poderia ser feita com os membros que a instituição reconhecia como didatas, assim também a supervisão. Para Lacan, a escolha era livre, não a partir de listas. Da mesma maneira, os supervisores também poderiam ser eleitos2. Apesar dessa liberdade de um lado, havia, no entanto, a recomendação de controle.

Isto une coisas que coloquei nos debates desta Jornada – crítica e controle. Tanto em relação à exigência – mais produção – quanto ao laissez-faire, a resposta do supereu é tornar-se mais exigente. Por isto, Lacan apresenta as duas coisas: certa lassitude, no sentido de se poder escolher o analista pela transferência, o supervisor, o cartel, com quem fazê-lo, como fazê-lo, qual tema; mas depois Lacan diz: crítica e controle.

Crítica e controle
Ontem, na conferência “Não nos cuidem tanto”, enfatizei o controle porque estava falando da questão da vigilância, do panóptico – não penso que a Escola seja um panóptico. Contudo, na EOL houve um momento, em uma jornada intercartéis ou algo assim, que se questionou a maneira como a Escola queria intervir nos cartéis, intervir no bom sentido do termo – não como quando se diz intervir em uma província ou intervir num país, politicamente. Hoje entendo que a Escola pode intervir nos cartéis como quando se intervém em uma fotografia, quando, por exemplo, se pinta uma fotografia.

Não somente controle, mas crítica e controle, porque efetivamente são momentos nos quais se tem que criticar, objetar, provocar que o outro dê seus argumentos – é isso que faz uma boa dobradiça, para permitir não somente a formação dos analistas mas também o avanço do saber analítico.

O cartel interroga a Escola
A Comissão propôs a Seldes a seguinte reflexão: O exposto em torno do tema do controle permite pensar que a apresentação dos trabalhos em uma jornada pode configurar-se como uma maneira de a Escola ser interrogada. Ser interrogada e se interrogar no sentido de que podem existir outros modos de se trabalhar a psicanálise, e que a própria Escola pode aprender com isso. Ou seja, os psicanalistas da Escola podem também se interrogar sobre o alcance da psicanálise no mundo. Trabalhos como o de Márcia Rosa, que pode transmitir sua experiência na universidade, de como ela pode aprender enquanto analista; trabalhos que vêm de diferentes lugares onde o cartel está, onde o cartel alcança, podem provocar um retorno para a própria Escola no sentido de sermos também interrogados. A Escola também pode aprender com isto.

Ricardo Seldes: Exatamente. Muito interessante. É um vai e volta. Ou seja, havendo uma perspectiva de crítica e controle, esta também recai sobre a Escola. Assim, a partir deste ponto de vista, a Escola não controla; ao contrário, são os cartelizantes e os membros que também criticam e controlam a hierarquia na Escola.

Dinâmica dos cartéis: escansões e franqueamentos
A questão fundamental, penso ser justamente aquela que chamei de escansões e franqueamentos dentro do trabalho do cartel. O que se passou no trabalho do cartel?Como se deu o início e como se concluiu, tanto no nível do um por um, como no nível coletivo do trabalho? Há um trabalho do cartel, um trabalho dos membros, mas também há um trabalho do cartel que produz efeitos nos seus membros. E, por isto, insisto nas escansões e nos franqueamentos que cada um faz no trabalho do cartel.

Trata-se, então, de apresentar a céu aberto não só o produto, mas também os obstáculos, os tropeços do cartel – não no sentido imaginário, porque não faz muito sentido para a comunidade contar, por exemplo, se dois foram embora porque tiveram problemas. O interessante no trabalho de Maria Wilma é acompanhar como esses obstáculos foram sendo interpretados e como ela foi obtendo dali um resultado, inclusive para ela mesma – captar aquilo que significa esta questão da elaboração provocada.

A elaboração provocada
O que Miller coloca em Cinco variações sobre o tema da ‘elaboração provocada’3relacionado ao discurso histérico que tenta provocar um saber, não está muito longe do que Elisa Alvarenga4 localizou a respeito do discurso analítico, que o cartel possa provocar por sua vez um trabalho com a comunidade. Ou seja, passar o produto de cada um, ou o produto do cartel, à comunidade.

Escola e cartel: pas de deux
Creio que o cartel é hoje o ponto onde a Escola está aberta. Nós vivemos um momento de máximo fechamento quanto à entrada de membros na Escola. Por isto mesmo temse que provocar a máxima abertura para o trabalho dos membros e não membros nos cartéis.

No entanto, trata-se de algo que também depende das preferências: há membros que gostam de cartel e outros que não, ou que já trabalharam muito neles – isso é próprio a cada um. Mas também é próprio da Secretaria de Cartéis provocar um pouco mais os membros e os não membros. E se não o conseguirem, que digam, no final de sua gestão, sobre as razões de poucos cartéis terem se formado.

Presentes na Conversa : Ondina Machado, Paola Salinas e Cristiana Pittella de Mattos.
1Transcrição e tradução : Paola Salinas

Edição do texto : Ondina Machado, Heloisa Prado R. da Silva Telles e Paola Salinas.

1 N. E.: Trabalho a ser publicado no número de 02 de Dobradiça : Boletim Eletrônico dos Cartéis da EBP, novembro de 2011.

2 N. E.: Sugere-se a leitura dos textos de Lacan reunidos no Capítulo V de Outros escritos , Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, em especial “Ato de fundação”, p. 239.

3 Miller, J.-A. “Cinco variações sobre o tema da elaboração provocada”. In: Jimenez, S. (org) O Cartel: conceito, e funcionamento na Escola de Lacan . Rio de Janeiro: Campus Editora, 1996; e In: Manual de cartéis . EBP-MG, Belo Horizonte: Editora Scriptum, 2010.

4 Alvarenga, E. “A contingência do falo e o final de análise”, Incidências da psicanálise na cidade, Vitória, Edufes, 2004, p. 72-79.

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