[Ação Lacaniana Entre-vista – Nº7] “POLÍTICA e PSICANÁLISE: Entrevista com José Luiz Quadros Magalhães” realizada por Débora Matoso e Guilherme Del Debbio

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POLÍTICA e PSICANÁLISE
Entrevista com José Luiz Quadros Magalhães
Por Débora Matoso e Guilherme Del Debbio*

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Entrevista com José Luiz Quadros Magalhães, Mestre e Doutor em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Professor Titular pela PUC-Minas e Associado pela UFMG. Coordenador da Rede pelo Constitucionalismo Democrático Latino-Americano (Região Sudeste).

A proposta de realização desta conversa aconteceu após escutar o professor José Luiz Quadros numa conferência em evento promovido pelo Conselho Regional de Psicologia. Naquela ocasião, ele explanou sobre o cenário político atual e fez sua leitura das relações que envolvem a crise política brasileira, em um contexto econômico mais amplo, em nível mundial. Chamou a atenção o fato de Quadros salientar que a psicanálise pode trazer contribuições ao campo do direito e da política, assim como sua decisão de endereçar sua formação em psicanálise à EBP-MG, através do Curso de Psicanálise do IPSM-MG.

Entendemos que uma conversa com um constitucionalista que recorre à psicanálise para pensar as questões próprias ao seu campo, bem como ao contexto social, político e econômico contemporâneo, interessaria à comunidade psicanalítica. E esta última, por seu turno, poderia contribuir para invenções de novos modos de viver juntos, num momento marcado por um tipo de binarismo político. Isto porque o discurso do ódio, como vemos, tornou-se espetáculo, cotidianamente veiculado pelas grandes mídias, fazendo da ação de se “tomar a palavra”, por essa ou aquela via, o disparador de uma série de reações cada vez mais inflamadas e violentas.

 

Qual leitura você tem feito do momento político atual?

Passamos por um período de 17 anos, em toda a América Latina, em que foram eleitos governos populares, sendo nesta região a que mais houve diminuição da desigualdade socioeconômica nos últimos 10 anos [1]. O BRICS [2] começou a apresentar um grande crescimento econômico, enquanto Europa e Estados Unidos apresentavam baixo crescimento e enfrentavam uma grave crise econômica. Será, portanto, a partir deste cenário mais amplo, que precisaremos começar a pensar o que está acontecendo no Brasil. Há uma competição internacional por mercado, por espaços, por riquezas dentro da lógica capitalista. É uma lógica com a qual eu não concordo, mas precisamos pensar dentro desta lógica.

Chama a atenção a insistência da mídia no sentido da criação de uma opinião pública de direita e preconceituosa aliada a um processo de desestabilização dos governos populares. É preciso considerar que esse sistema político e econômico gera corrupção. Portanto, não podemos aceitar investigações seletivas, ou seja, punir somente alguns empresários e políticos em detrimento de outros. Nós precisamos separar as coisas: apurar todo tipo de corrupção, de todos os partidos e dentro do devido processo legal – com ampla defesa e cumprindo as leis. Outra coisa é usar a corrupção de forma seletiva com a finalidade de desestabilizar um tipo de política que desagrada aos Estados Unidos e à Europa. Estou querendo fazer essa conexão porque acho importante que ela seja feita e pensada, para não nos transformarmos em marionetes. A divisão do país em dois grupos é um perigo que pode levar a muita violência. Essa divisão é equivocada e interessa a outros grupos que não a nós brasileiros.

Nessa crise política, as emoções se acirram. Há um ódio crescendo, e uma certa intolerância é gerada nessa polarização. Você acha que se trata de uma disputa ideológica? As pessoas assumirem uma posição significa a entrada em uma posição ideológica?

Há uma disputa ideológica em nível global, mas que se tem acirrado atualmente. Essa guerra ideológica existe desde o tempo da Guerra Fria. Está presente no cinema, nas histórias em quadrinho, na televisão, na universidade, veiculada pelos teóricos. Nós somos seres inevitavelmente ideológicos, estamos mergulhados em ideologia, e não tem como ser diferente. Mas tem como o poder interferir nesse processo para, propositalmente, levar as pessoas a agirem de uma determinada maneira. Mas o que se está vendo atualmente nas ruas, no dia a dia, é algo bem mais simples e superficial que é o fascismo. O fascismo é rasteiro. É o ódio. Há uma cena do filme O triunfo da vontade (1934), de Leni Riefenstahl, em que se diz: “Para quem defende a diversidade, o multiculturalismo, nós temos isso aqui [e mostra uma pistola semiautomática]. Nós vamos ganhar o coração e o fígado dos alemães e não a razão.” O fascismo atua é no fígado e não na razão. Não há diálogo possível com o fascista. Com uma pessoa que tem tanto ódio, você pode falar, levantar todos os argumentos que ela não vai te ouvir. Quando o diálogo acaba, o que resta é a violência. Muita gente que está envolvida nesse processo está com ódio. Isso é muito perigoso porque não tem como racionalmente chegar a essas pessoas. A não ser que algo diferente aconteça e tire essas pessoas da posição em que elas se encontram.

Você acredita que isso seja uma especificidade do tempo atual, em que as coisas são mais rápidas e imediatas e as pessoas têm menos disponibilidade para conversa? Haveria, hoje, um retorno desta ideia fascista?

Acredito que hoje talvez o fascismo seja pior porque está aliado a algo da superficialidade. Há muitos autores trabalhando com a noção de “presentismo”. Anteriormente, podia-se verificar o poder do Estado direcionado para controlar o futuro das pessoas através do controle sobre o passado. O Estado era responsável por contar a história, ou seja, constrói-se uma história oficial. Através dessas histórias transmitiu-se a ideia de heróis que vão encarnar comportamentos que as pessoas devem seguir, as famílias-modelos etc. Dessa forma, cria-se uma história, e o Estado passa a ser o dono dessa história e a veiculá-la via uma linguagem oficial. Ao controlar o passado, também se controlava o futuro. Talvez aqui pudéssemos aproximar essa questão do Estado à noção psicanalítica de “Ideal de eu”. Ora, o futuro era controlado através da criação de um ideal nacional. “Você como brasileiro, como francês, como inglês, deve desejar isso!” O Estado prescrevia o que deveriam ser as metas, os modelos a serem sustentados por todos. Exemplo: você deve estudar, crescer, casar-se e ter filhos, ter emprego. Portanto, dessa maneira, criou-se o que seria ser esse nacional. Essa é uma função do Estado moderno nacional. Essa reflexão me levou a buscar mais elementos da psicanálise para tentar entender essa ação do Estado. Hoje essa pessoa com tradição fixa, construída pelo poder do Estado, já não interessa mais ao capital. A este último interessa que as pessoas vivam num presente contínuo. É como se a sociedade de consumo oferecesse permanentemente pacotes prontos: “O que você vai curtir hoje?”; “Qual é a curtição do momento?”. Aqui podemos considerar o termo utilizado por Zizek, a saber, o jouissance, o enjoyment: curta a vida adoidado, curta permanentemente; mesmo que você não esteja com vontade, a ordem é curtir! Talvez aquele superego repressivo que determinava “não faça” ou “não pode” mudou sua função. O novo imperativo é “curta!” ou “aproveite a vida o tempo todo”. Curtir passa a ser uma obrigação. Oferecem-se pacotes, sobretudo aos jovens, que já não tem nenhum compromisso com a tradição, nem com passado, nem com a família. O futuro passa a ser moldável nesse presente contínuo permanente. Daí é que a gente começa a visualizar a facilidade com que se tem hoje em se manipular a opinião pública, levar as pessoas em várias direções. Enfim, essa é uma reflexão mais simplificada de algo que eu acho que é muito mais complexo e que merece a nossa atenção.

Como a psicanálise pode ajudar nessa leitura?

Aprendi muito com a psicanálise, que é fabulosa. Converso com psicanalistas que falam que a psicanálise não é teoria, e sim clínica. Mas há também a psicanálise teórica. Eu discutia muito com Célio Garcia a questão do desejo: como esse desejo pode significar libertação, um dos conceitos possíveis, ou seja, aquilo que nos movimenta e nos mantém vivos. Ao mesmo tempo, a sociedade de ultraconsumo se apodera disso e nos escraviza, transformando-se numa sociedade do desespero, onde permanentemente busca-se o preenchimento daquele vazio através do consumo. E de formas cada vez mais aceleradas. Acredito estarmos vivendo um momento de transformação. Viveremos um momento de ruptura. Não dá para continuar do jeito que está, dentro da cabeça das pessoas, das sociedades que estão aí, dessa estrutura econômica. Vai chegar uma hora em que tudo isso vai travar.

*Entrevista realizada por Débora Matoso – psicóloga, analista praticante, doutoranda em teoria psicanalítica pela UFMG, supervisora do projeto de extensão SELEX (UFMG), membro da ONG Borda – Convivência, Cidade, Pesquisa – e Guilherme Del Debbio – psicólogo, analista praticante, mestre em educação pela UFMG, psicólogo clínico do Centro de Atendimento e Inclusão Social (CAIS) e do Freud Cidadão, membro da ONG Borda – Convivência, Cidade, Pesquisa.

 

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[1] Esses dados podem ser encontrados no site do Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento Humano – PNUD. Cf. <www.pnud.org.br>.
[2] BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O que faz o BRICS?

Desde a sua criação, o BRICS tem expandido suas atividades em duas principais vertentes: (i) a coordenação em reuniões e organismos internacionais; (ii) a construção de uma agenda de cooperação multissetorial entre seus membros. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/politica-externa/mecanismos-inter-regionais/3672-brics>.

 

Imagens:

1- Maria Objetiva /Antônio Beirão
2- Foto de José Luiz Quadros Magalhães