[Ação Lacaniana Entre-vista – Nº6] Oscar Reymundo e Maria Josefina Fuentes sobre: “A cada um seu sexo?”

A Ação Dobradiça perguntou a Oscar Reymundo e Maria Josefina Fuentes, em entrevista realizada por Nohemi Brown, o que a psicanálise tem a dizer sobre a pergunta: “A cada um seu sexo?”. 
Confira a opinião esclarecida desses psicanalistas!

 

Entrevista: Oscar Reymundo

Imagem Entrevistas- 02 Oscar Reymundo

Nohemi: Uma primeira questão com relação ao tema é: o que se entende por sexo? O que indica a anatomia ou o que se subjetivou? O que é o sexo para cada um?

Oscar: Do ponto de vista do imaginário social, o sexo esteve e continua estando ligado ao sexo anatômico. Faz parte da tradição subversiva da psicanálise a ruptura com esse imaginário e a separação entre duas formas de o sujeito se posicionar face ao eterno enigma da sexualidade. Lacan propõe, assim, um novo binário que já não responde ao binário tradicional homem-mulher referenciado no sexo biológico, porque no tesouro dos significantes não havia uma palavra que exprimisse a conclusão à qual Lacan chegara. Foi necessário que ele inventasse um neologismo para dar conta dessas duas posições: sexuação. Com esse conceito, Lacan assinala no ser humano a existência de um gozo, real, que não está dado pelo biológico, nem pelas identificações e que nada deve à realidade anatômica desse corpo. Nesse sentido, podemos dizer que o sexo é para cada um, antes de mais nada, um consentimento, isto é, consentir com a colocação em ato de um modo de gozo que não pode ser referenciado em relação ao “sexo oposto”, como se costuma dizer. É a função fálica a que permite a divisão entre as duas posições de gozo que não respondem a uma escolha voluntária e, muito menos, variável. Divisão entre um gozo simbolizável, quantificável, todo fálico, e outro gozo que não permite o sujeito inscrever-se em um coletivo. Trata-se de um gozo não-todo fálico.

Nohemi: Podemos considerar que as fórmulas da sexuação e a lógica fálica são uma ferramenta para pensar as novas formas de sexualidade? Como pensar a sexualidade e a sexuação nesses casos?

Oscar: As fórmulas da sexuação continuam sendo uma ferramenta que nos orienta para pensar e abordar as novas formas da sexualidade, acima de tudo em uma época em que a clínica nos apresenta situações nas quais o sujeito rejeita o assim chamado “erro comum” e não aceita ordenar sua sexualidade em conformidade com a função fálica (todo/não todo). Trata-se de invenções singulares lançadas ao infinito que desenham um panorama no qual não podemos esquecer que o que habita o núcleo do conceito lacaniano de sexuação é um impossível. Impossibilidade que faz com que essa diferença de posições sexuadas esteja longe de poder ser comparada com outras diferenças apoiadas nas articulações simbólicas. Diferença absoluta com a qual é bom que cada ser falante saiba fazer o melhor para poder ter uma vida digna com outros.

 

* Oscar Reymundo é psicanalista, membro da EBP e AMP. Contato: [email protected]

 

Entrevista: Maria Josefina Sota Fuentes

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Se nos anos 1970, Lacan escandalizava o público com o aforismo A mulher não existe, hoje em dia é bem-tolerada a noção de que cada um possa ter seu sexo – o que é, inclusive, uma exigência da militância dos Gender Studies.

Com efeito, é notável a progressão da generalização da lógica feminina da sexuação nos tempos do Outro que não existe (MILLER, 2005), que implica a abordagem pela via da singularidade, quando o Outro como o Um que da classe vacila juntamente com as identificações sexuais antes reguladas pelo Nome-do-Pai. Por fim desvelado, o aforismo a relação sexual não existe apresenta-se também a céu aberto na civilização que incita ao gozo ilimitado, ao mais e, ainda, onde finalmente a parceria com gozo é explícita.

Nesse sentido, o próprio movimento desconstrucionista butleriano – que denuncia não somente as identificações supostamente normativas baseadas no binarismo homem/mulher, mas qualquer identificação sexual, uma vez que, não sem razão, o gozo é sempre rebelde ao significante e à universalização (MILLER, LAURENT; 2006) – pode ser lido como a expressão do nominalismo reinante regido pela lógica do gozo feminino que arrasta o sujeito ali onde ele não mais se encontra. A falta de essência dA mulher que não existe, generalizada, estende-se a toda identificação que se desvela como puro semblante. Finalmente, a militância butleriana defende que cada um possa gozar livremente à sua maneira, sem a clausura de qualquer identidade que encapsule o sujeito, num processo aberto regido somente por atos performáticos e cuja única norma seja o ilimitado, um gozo sem barreiras baseado num laço social que rejeita a política de identidades.

Seguindo o argumento de J.-A. Miller e Éric Laurent (MILLER, 2013) no debate com estudos do gênero, essencialmente universitários, na experiência analítica não encontramos a extraordinária liberdade à qual tais discursos convidam, senão no plano do sujeito barrado, que pode infinitamente deslizar na metonímia significante. Rejeitam-se as identificações, mas, ao contrário, seu efeito é sua multiplicação: proliferam nas categorias identitárias dos direitos das mulheres, segundo as raças, as minorias, e naquelas promovidas não mais pelas designações vindas do Outro edipiano, mas através das autonomeações.

Os últimos desdobramentos do ensino de Lacan permitem dar o devido alcance aos deslocamentos da época, afastando o apelo da resposta reacionária. Para além do conceito de “sujeito” – e tendo atravessado o litoral da sexualidade feminina com as fórmulas da sexuação no Seminário 20 –, com a noção do parlêtre e sua consistência corpórea, Lacan extrai novas consequências para os seus aforismos, notadamente no Seminário 23. A mulher não existe e não há relação sexual, mas, necessariamente, “há uma relação corporal” (MILLER, 2013: 417), quando, inclusive, a tese do Il y a de l’Un adquire um novo alcance.

À relação sexual perdida, que não há, nem com o Outro nem com objeto algum, incluindo o corpo próprio – pois o sexual, propriamente dito,é sempre troumático, isto é, marcado pelo furo da ausência de uma inscrição que estabeleceria a relação sexual –, Lacan acrescenta que uma relação ignorada, não epistêmica, com o corpo. É o que desenvolvem ainda Miller e Laurent. Trata-se de uma relação de adoração, embora de imperfeição, já que o corpo, que não se resume nem à identificação simbólica nem ao narcisismo do estádio do espelho, escapa a toda hora.

Isto, por si só, faz objeção à tese de Butler crítica do patriarcalismo, pois finalmente supõe no horizonte o amor a um pai que dê limites à função que supre a relação sexual que não há. Além disso, confere o aspecto imaginário e simbólico da autonomeação, seja ela inventada, performática, pois nenhuma identificação elimina a opacidade do real em questão, que resta como referente para a psicanálise. Portanto, não há nenhum gênero ou identidade de Um a si mesmo que não repouse senão sobre o rechaço da divisão subjetiva, do sexo que é, por estrutura, ininteligível – para usar a terminologia butleriana –, uma vez que o parlêtre não escapa da debilidade intrínseca do mental.

Ademais, permite entender a multiplicação das identificações como uma tentativa pós-moderna de fazer consistir o corpo que escapa, e ler, como propõe Brousse (BROUSSE, 2015), o gênero como um novo sintoma e um modo de sublimação. Trata-se da necessidade de agarrar o corpo frente ao empuxo desconstrucionista da época e, ao mesmo tempo, uma sublimação que procura elevar o Ego à dignidade de um nome para se fazer reconhecer por alguns outros.

Para concluir: a cada um seu sexo, ou seja, a cada um seu modo troumático de não encontrá-lo ali onde a debilidade do pensamento não o alcança senão sinthomaticamente. Diante dos seus impasses, a psicanálise poderá mobilizar o real da castração para, através de novos arranjos, fazer consistir Um-corpo que não seja às custas da segregação angustiante do real do gozo singular que concerne ao parlêtre.

 

Referências:

BROUSSE, M. H. O gênero em três dimensões. Conferência proferida no IPUSP, em novembro/2015. Disponível em: <www.tinyurl.com/seminariolacan>.

LAURENT, J. e LAURENT, E. (1996/97). In_ MILLER, J.-A. O Otro que no existe y sus comités de ética. Buenos Aires: Paidós, 2005.

MILLER, J.-A. Gays em análise. Opção lacaniana, São Paulo, Edições Eólia, n. 47, p. 15-22, dez. 2006.

MILLER, J.-A. Piezas sueltas. Buenos Aires: Paidós, 2013. p. 399-419.

 

* Maria Josefina Sota Fuentes é psicanalista. Membro da EBP e AMP. Contato: [email protected]