[Conversações/ Intercâmbio com a cidade – Nº4] Relato de três experiências no Rio de Janeiro

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Herieth, Maurizio Azeri

A proposta do INTERCÂMBIO da Ação Dobradiça da EBP – infiltrar-se em debates pelas cidades e fazer conversar a psicanálise com outras áreas e ações – teve, no espaço criado pela seção Conversações, no segundo semestre de 2015, uma frente de trabalho rica e interessante. A ideia de Conversações é a de que ocorram em locais públicos, fora das sedes de nossas Seções e Delegações, e de que se façam a partir do diálogo entre um colega ligado à EBP e convidados de fora que tenham a dizer sobre temas candentes de nossa época e país, além de todos aqueles que se sentirem atraídos pela conversa. A ideia não é a de, nesses encontros, avançarmos em conceitos psicanalíticos, mas a de nos abrirmos ao diálogo, à escuta de outros discursos e à potência e vivacidade da psicanálise no campo público, em um esforço de sairmos de nossos jargões.

Nesta primeira rodada de Conversações, contamos com o excelente apoio da Blooks Livraria, tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, que nos cedeu o espaço e nos ajudou com a divulgação, além do incentivo entusiasta de sua dona, Elisa Ventura. Também contamos com o apoio da Subversos Editora, responsável pela arte e boa parte da organização e divulgação dos eventos. Parcerias diferentes em cada cidade são muito bem-vindas para que essas Conversações aconteçam.

Abaixo, uma breve notícia sobre cada um dos encontros de 2015 no Rio de Janeiro. Nosso desejo é o de que esses encontros e novas parcerias proliferem em 2016 em outras cidades! Também é possível assistir a um brevíssimo e entusiasta comentário de alguns dos convidados que participaram neste primeiro ciclo, a quem agradecemos imensamente pelas excelentes conversas: Luiz Eduardo Soares, Fernanda Otoni, Cid Merlino, Romildo do Rêgo Barros, Pablo Capilé, Isabel do Rêgo Barros Duarte.

A que serve a ânsia de encarceramento? 

Giovanni, Maurizio Azeri
Giovanni, Maurizio Azeri

As notícias cotidianas em jornais e redes sociais nos fazem constatar: a segregação vem se mostrando um tema de importância máxima a ser pensado, questionado, trabalhado e revirado. Ainda nos anos 1960, Jacques Lacan alertara sobre uma ampliação cada vez mais dura dos processos de segregação. Convidamos o antropólogo Luiz Eduardo Soares e a psicanalista mineira da Escola Brasileira de Psicanálise Fernanda Otoni Brisset para abrir a conversa sobre os processos de segregação a partir da lógica do encarceramento, que tanto seduz e tão pouco produz como mudança.

No rastro do lançamento do livro Rio: histórias de vida e morte, de Luiz Eduardo Soares, realizado na semana anterior à da nossa primeira Conversações, demos início ao diálogo, que contou com a lucidez, implicação e leveza do pensamento de Luiz Eduardo e com sua experiência no campo da Segurança Pública brasileira, além da elaboração de Fernanda Otoni, que agregou ao debate a lógica do encarceramento nas instituições ligadas à saúde mental no Brasil. A participação do público foi provocante, questionando as lógicas institucionais, as responsabilidades individuais, as ilusões românticas e as aberturas criativas singulares.    

Violência e vergonha

Round Midnight, Maurizio Azeri
Round Midnight, Maurizio Azeri

Com o filósofo Michel Foucault, aprendemos que, na Grécia Antiga, berço de nossa civilização, a culpa não assolava seus cidadãos. Era a vergonha o sentimento a nortear, aqui e ali, um olhar crítico de si para si, a partir do olhar do outro. A culpa teria sido uma invenção moderna, a reinar com força nos tempos da criação da psicanálise por Sigmund Freud. Atestamos, no entanto, que hoje a culpa já não impera mais do mesmo modo que o fazia na época vitoriana. Atos violentos, por exemplo, são promovidos (ou desejados) sem que isso venha a gerar culpa. Sem a preponderância da culpa, teria a vergonha um novo lugar no contemporâneo? Poderia ser a vergonha uma possível resposta à violência?

Essas e outras perguntas foram debatidas pelos psicanalistas Romildo do Rêgo Barros, da Escola Brasileira de Psicanálise-RJ, e Cid Merlino Fernandes, nosso convidado da Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro. O tema chamou um número grande de curiosos e interessados. A novidade de se estar em um espaço público é que mesmo aqueles desavisados sobre o evento, mas que passavam pelo local na hora da conversa, paravam para prestar atenção, surpresos e fisgados por uma ou outra palavra, uma ou outra ideia.

Em tempos sem líderes: o singular no coletivo

A escola de psicanálise de Jacques Lacan foi pensada por ele, nos anos 1960, de tal forma que pudesse dirimir e subverter a lógica vertical de organização em torno de um mestre, de um líder a ser seguido por uma massa. Embora a escola de orientação lacaniana não se organize exatamente de modo horizontal, ela muito menos segue uma ordem vertical. Há aí certa consonância com uma tendência de nossa época em que organizações democráticas verticais perdem força – ou, quando não, se apresentam da pior forma, beirando a lógica totalitária. Como as novas formas de organização se viram diante dos impasses de nossos tempos? Como incluem as singularidades em seus coletivos? Pablo Capilé, do coletivo Fora do Eixo, e a psicanalista Isabel do R. B. Duarte, da Escola Brasileira de Psicanálise-RJ,deram início a essa conversa, que se mostrou imensamente viva e rica.

Enquanto Isabel balizou, de modo simples e extremamente preciso, nossos “tempos sem líderes” à luz de Freud e Lacan, Capilé deu um testemunho a partir de sua experiência no coletivo Fora do Eixo, que, segundo ele, funcionaria não a partir de uma liderança, mas do que denominou de “polifonia das diferenças”, contando com várias lideranças, numa lógica que nomeou de “diagonal”. A conversa foi tão boa que a parceria se estendeu para outros convites e atividades.

 

 

 

Imagem: (moça negra “gritando” com os bordados verdes) Herieth, Maurizio Azeri.

As outras obras desse artistas já estão nomeadas na revista.

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